Bem-vindos à nova dimensão... seqüenciador de sonhos online.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Peçonha *silvos ao pomar*

Gosto de maçãs.

Da mordida à casca, o cortar com os dentes, o sabor.
A boca deslizando pela textura, e ela desmancha.
O doce e envolvente aroma dessa fruta venenosa.
Preenche a boca, tocando a língua, perdição e prazer.

Meus lábios no fechar sobre a vermelha pele úmida.
Perdido em devorar promessa de puro pecado.
Os dedos, o firme toque, tomar pra mim o fruto.
A beleza, tantos tons que transparecem suculência.

Hoje, não sei que bruxa foi justo àquela maçã mexer.
Mas peçonha como aquela eu nunca havia provado.
Amaldiçoada a mordida, mas abençoado é o corpo.
Vem doce veneno, tomando as forças, a me derrubar.

O chão é frio, o mármore quer gelar-me até os ossos.
Caído, sinto a respiração falhar, o peito apertando.
Por aqueles instantes, tudo parece dor e eu grito.
Quando tudo que eu quero é só uma mordida a mais.

Gosto de maçãs.

Poison__by_punkredneck
Poison, de ~punkredneck, no deviantART

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Camadas *nos vazios salões do Palácio*

A máscara era belíssima. Toda cravejada em jóias, toda em metal nobre, polida, reluzente, só as pequenas ranhuras e os arranhões quase invisíveis que nem o cuidado minucioso saberia retirar, do dia-a-dia. Algo de uma presença palatável, uma máscara de olhares resolutos e retumbantes. E essa, em meio à dança, aqueles dedos delicados da moça tiraram com delicadeza. Ele precisaria dela, quando se despedissem, mas era o jeito dela pedir que não a usasse quando estivessem juntos.

Por baixo dela, a segunda era quase um choque estético, ante a anterior. O rosto de um oni guerreiro, as presas à mostra, o olhar ameaçador, demoníaco, os traços duros e angulares, toda a presença se tornava ameaça, ele poderia parecer prestes a saltar sobre a presa, a dança já havia até parado. E ali, frente a frente, ela fez reverência à furiosa besta e com as duas mãos e algum esforço, retirou-a, deixando repousar junto à primeira.

A terceira "face" sorria um tolo sorriso infantil, mas deixava escorrer uma lágrima por sobre a bochecha rosada e gorducha. Trazia toda a inocência de quem ainda sorria por sorrir, mas toda a resignação de ter que crescer. Os olhos nessa brilhavam com a explosão de um universo em expansão, um pequeno Big Bang que parecia poder contagiá-la. Quis ficar nela... quis deixar ele ali, daquela forma. Mas as mãos grandes tomaram as suas e levaram seus dedos até aquele elástico fino... e ela a tirou, com grande pesar.

Barro... a argila seca e cheia de ranhuras, a face contorcida em uma dor inominável, que gritava pelo salão e ensurdecia a ambos. Aquela feição escura, deixando soltar poeira, que parecia vir afastá-la. Caía ele de joelhos, sentindo o rosto arder como se em chamas, arranhando aquela testa com as unhas, querendo rasgar a cerâmica do tormento, e em meio ao desespero, tomou em mãos uma pedra. Uma, duas batidas, e as rachaduras aumentavam. Até que aquelas doces mãos tomaram seus pulsos. Pegando aquela pedra, jogando-a longe. E com a mesma delicadeza que lhe retiraram a primeira máscara, foram descascando o barro, revelando o homem.

E essa face contorcida ela escondeu...

Onde?

Ele não sabe.

Mas ela queria um beijo de pele, raro e verdadeiro.


O Grito, de Edvard Munch.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Silêncio... *passos pelo pântano*

E eis que correndo pela vida, tropeçou em uma pedra que não era bem pedra, mas com certeza era bem sólida. Teve de abrir as asas para não cair - sob o tolo e eterno medo de não mais se levantar - e o tropeço pareceu um salto. Virou-se para trás e não viu pedra, ou chão ou planta. Tropeçara, sim, no escudo de outrem, e dessa forma - pela primeira vez em muito tempo - parou pra olhar.

Perdeu o medo do chão ao perceber q só deitado nele conheceria a sombra daquele escudo e os olhos ali escondidos. Sim, o mundo parou pra ele... quis deixar ele olhar.

Leva os toques às asas, de mãos que ao chão conheciam o conforto da lama, como apenas crianças sabem reconhecer. Levanta, forte e novo, como só quem já lhe deu forças sabe q pode ser.

Bebeu do desafio, para banhar-se em sangue. Deixar verter o mundo pelas veias, uma vez mais. Na tola ambição que só este brilho aos olhos pode resguardar.

Desafia... sem gritos, brados ou lâminas erguidas. Desafia, só nas cores do olhar.

Fallen_Is_He_Who_Once_Soared
Fallen Is He Who Once Soared, de 'jezebel on deviantART.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

63g *vozes difusas*

Turbilhão...

A mente perdida entre tantas coisas, tantos momentos e sensações em que o corpo mergulhava, onde parecia que até a pele deixara de ser limite. Por vezes, eu certamente não era eu, ali. Mente levitando em asas, indo olhar tudo de fora, como se num sonho. Me perdia de mil formas, apenas para me reencontrar no instante seguinte, sentindo a volta para atrás de meus olhos.

Entendi pela primeira vez a expressão "corpos celestes", quando notei que tudo ali estava leve demais, flutuando, como se a cada momento o ponto de referência, cerne da relatividade, pudesse mudar ou transformar-se. Se nada há que una a matéria e essa exista apenas das relações entre forças, então naquele lugar haviam átomos grandiosos, acelerados, colidindo pelo espaço fechado.

E na conectividade que faz a matéria, éramos plenos de vazio. Existindo por pouco. E se a alma realmente pesa 21 gramas, ela não voa, mais leve que o ar. Era ali, estava todo o peso do trazer e viver de lembranças, dores, prazeres... todo o peso de um êxtase incessante, da vida que foge a essa medida tão simplória.

Mas no brilho dos meus elétrons, viu-se algo mais... tolo eu, não fechei os olhos.

 
Maelstrom, de ~ZephyrAnalea no deviantART.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Golden Years *de alguma televisão esquecida*

eu-1995

Sempre fui moleque com M de mala. Um fato. Armava das piores para testar meus limites e ver até onde me aturavam, e nossa, tem gente q merece palmas por ter me agüentado tanto. Mas enfim, me chamaram a falar da infância e por isso fico aqui, conjecturando que experiência compartilhar.

Estudei em colégio católico, fiz primeira comunhão e tudo, mas enfim, cresci acostumado aos mesmos lugares e rostos, inclusive ainda moro nesse bairro. Ando pela rua e, criança extrovertida que era, sempre tem alguém que olha pra minha cara e me cumprimenta, ou fala algo do tipo "nossa, te conheço de moleque, né?". Mas o que muita gente não sabe é que minhas memórias começaram em outro lugar.

Sinopi, Mato Grosso. Me lembro de barro, muito barro. Uma cidadezinha que, eu soube, há coisa de menos de 10 anos foi finalmente asfaltada. Também soube que já foi considerada a capital nacional do Motocross. Isso é quanto barro tinha lá! *rs* Mas de lá, me lembro de algumas das histórias mais bizarras, com certeza. Como a vez que chegava em casa, caindo a noite, no carro da Dra (vulgo: mãe) e ela comenta: "Nossa, olha que cachorro enorme tá revirando o nosso latão de lixo!" Quanta gente pode dizer que conheceu uma onça pintada, tão de pertinho? Ah, sim, e meu pai é procurado pelo Ibama. Ou ao menos deveria. Que eu saiba, atropelar um tamanduá bandeira é crime ambiental. Hahahahahahahahaha!

Mas tá bom, tá bom, eu tenho q escolher UMA história, né? Então vou pular de volta já pros tempos de Rio. Sempre adorei meus amigos, todos. Muita gente de colégio eu encontro até hoje, é ótimo - e um dos motivos porque o apelido "Addam" perdura -, mas não dá pra esquecer de todas as festas da escola, os encontros insanos, as madrugadas viradas e as viagens doidas. Fugir da aula pra nos trancarmos na sala de judô do colégio, tirar os sapatos e ficar zoando e rolando pelos tatames. Finais de semana inteiros lá em casa, só jogando vídeo-game (SuperNES comanda até hoje, valew?) e falando besteiras. A adolescência de viradas em "verdade ou conseqüência" e, impossível esquecer, as noitadas de RPG que infernizavam meus pais, com um bando de gente se empolgando na sala, rolando dados e rabiscando fichas.

Ah, quer saber? Não tenho uma história, específica. Dedico esse post a todo mundo que acrescentou alguma peça ao Lego que foi minha infância. E quero me desfazer de meus livros de RPG e vídeo-games antigos... mas sabe q aperta o peito, tentar?

Postei isso aqui a convite da linda Nanda, que sempre vem me dar um abraço cá pelo Palácio. Não vou convidar cinco pessoas pra fazer isso, pq eu mesmo gosto só de responder aos memes q curto. Então quem gostou, fique à vontade e me avise se o tiver feito.

Existem algumas regrinhas para este meme.
Peço o favor que todos a sigam. São elas:
1. Colocar o(a) link de quem o convidou;
2. Escrever um texto sobre lembranças da infância;
3. Postar o selo do meme dentro do artigo;
4. Se possível, colocar uma foto de quando era criança ou adolescente;
5. Chamar cinco amigos para brincar com você.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Inércia. *dos aposentos do Rei*

Tentei acordar, eu juro... fiz de tudo para lembrar-me que o despertador tocava por um motivo, mas esqueci qual ele seria e ali fiquei, sem abrir os olhos nem pra ver o teto. O corpo e as pálpebras tão pesados que bem podia ter tudo desabado em cima de mim. E eu nem ligando. Tentei acordar porque do lado de fora as coisas já se moviam, e eu cá parado.

Pensei se eu podia apelar, sabe? Segundo a relatividade, para todo o resto eu me movia e a inação era deles. Dormir em movimento, só puxar o edredom de volta e ficar ali, quietinho, me deixando ser arremessado pelo espaço, na velocidade absurda q sempre estive em relação ao sol. Fugir dele, aliás. Quero a noite, fria, escura e confortável. Quero mais motivos pra me esquentar, não suar por aí, dentro de um terno pesado, sob os grilhões de relógios de pulso.

E pensei... por alguns minutos pensei. O dedo no botão que desligara o apito irritante. Havia motivos... não um, mas vários. O mundo lá fora é o de um sol cheio de promessas, muitas vãs e tantas tolas, mas algumas interessantes. E foi quando ficar parado começou a me irritar, profundamente. Não sei do que quis fugir, a cama tão confortável e quentinha... mas vazia. Nem o gato ficara deitado, ali, já queria mais da vida. Me olhava, de perto da porta, prestes a miar por mais. Mais comida, mais água, sempre algo mais.

Então quem sou eu, pra aceitar menos?

DSC01853

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Cafeína *risadas dos macacos de terno*

Acordo todo dia como quem está na beira da plataforma do metrô, vendo toda aquela gente passar quase voando, dentro das janelas, nos carros. Eu ali, lerdo e ainda tentando me soltar das teias do sono, esfregando a cara como quem teima em não ir lavar o rosto, ainda. Tem manhãs que dá vontade de ver todos os trens passarem, ao longo do dia, até que não sobre nenhum e só me reste voltar a deitar nos bancos e dormir mais.

O primeiro esforço é sempre vencer a inércia. Um corpo parado quer permanecer parado, afinal. Mas já me ensinou meu ortopedista: “você se espreguiça, alonga bem, ergue os joelhos, vira o corpo de lado, ergue o tronco e toca o chão com os pés. Aí levanta.” No erguer dos joelhos, já estou revendo tudo que pode dar errado no meu dia e tentando fazer planos de contenção. No erguer do tronco, já pensei em cinco saídas para cada uma dessas possíveis falhas. Tocar o chão que é duro. Sentir que a madrugada congelou o mundo inteiro, menos a minha cama, quentinha e confortável. Mas levanto mesmo assim.

É quando abro a porta e pego o jornal de cima do capacho que eu saco o primeiro trem passar batido, na minha frente. A primeira sensação de que eu acelero ou fico pra trás. Abrir a janela da sala pra deixar o sol entrar também não ajuda muito, mas ao menos me faz notar que tem mais gente na plataforma, comigo, ainda. Na varanda da frente, o guri sempre já de uniforme, brincando com uma bola, enquanto a empregada corre atrás do irmão dele, que teima em não colocar as meias. Uma idade em que nunca se está só no trem nem apenas fora dele. Tudo tem o mesmo ritmo. E o vento pela janela me faz lembrar que ainda não descongelei o mundo que a madrugada me roubou.

Hoje em dia já não ligo mais a televisão, de manhã. O barulho dela parece que invade o meu silêncio, incômodo e tolo. Já me basta toda a retórica de medo e reverência que invade a minha casa nas linhas do jornal. Pouca coisa realmente importante deve ter acontecido, desde a impressão daquelas folhas. De qualquer maneira, tem horas que ligar a tv é pior que abrir a geladeira. Calafrios mil, da pele até os ossos. Do papel, eu escolho mais facilmente o que quero ler e sofrer. O banho ajuda um pouco. Esquenta a pele, mas não a alma, é só um relaxamento e mais um passo para saber que não dá mais pra deitar e dormir. Ouço cada vez mais e mais trens passando, enquanto a noite escorre aos meus pés, esvaindo-se pela plataforma. Arrumar-me é tornar-me, também, parte desse frio, mas ao menos o terno cai bem.

A verdade é que só tem uma coisa para realmente aquecer-me. Meu único, terrível e confesso vício apita, no som da cafeteira. Os lábios indo provar da caneca fumegante, enquanto dobro os joelhos e me inclino à frente. O próximo trem é o meu.


Caffeine Fix, by 'Davenit on deviantART.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Descobertas... *do diário do Andarilho*

Se em meio a um mundo de descobertas, dois se descobrem um e um se descobre nulo, o que resta dessa vida se nada é o indivíduo e tudo é o outro?  Nessa indefinição do ser, busquei um dia descobrir-me em outros olhos e encontrar algo que jamais perdi. Naqueles olhares só haviam máscaras... quem eu sou sempre esteve só comigo.

Empresta-me os seus olhos e esqueça do brilho aos meus. Ele ofusca e é por um motivo. Não me descubra neles, exceto nos momentos que a fome não os inflame. Na besta domada, ainda indócil, está o que procura. Pode fazê-lo?

Decifra-me ou te devoro.

Varanasi_Seduction_by_jollyjack