Mergulhando insano…
eu na sede do teu calor.
Boca, fome do teu suor.
Entregue ao anseio.
Sou pele na sua pele,
lábios nos suspiros,
dedos em seu corpo.
Tesão em transe.
Desire, de *AbidingDaRules no deviantART.
Mergulhando insano…
eu na sede do teu calor.
Boca, fome do teu suor.
Entregue ao anseio.
Sou pele na sua pele,
lábios nos suspiros,
dedos em seu corpo.
Tesão em transe.
Desire, de *AbidingDaRules no deviantART.
- A gente tá morto, lembra?
Era realmente estúpido reclamar do frio… mas que ele sentia, sentia. A caminhada de pés descalços pelos longos corredores de pedra daquele desfiladeiro era muito pior do q parecia, no começo. Luiz sentia que não fazia muita diferença, carne ou espírito. Os pés doíam igual, a caminhada cansava… só não sabia mais precisar a passagem do tempo, mas isso ele até achava bom.
- Saudade, sabe? Nunca imaginei que dava pra sentir saudade dos sapatos, caminhando… mas qualquer sola, confortável ou não, seria melhor que descalço assim.
- Sabe… morrer podia ser uma experiência diferente, mas até aqui você tá do meu lado… e parece que morto, ficou mais chato. – A voz dela trazia aquele jeito ferino. Reclamava, mas ainda era ela também a mesma pessoa de antes.
Os dois não lembravam de muita coisa, mas tocando o próprio corpo sentiam exatamente onde o sangue teria escorrido. Lanhos à pele, buracos aqui e ali. De vez em quando ele cedia a um impulso mais masoquista e deixava os dedos explorarem a ferida mais profunda de todas, indo descobrir o próprio coração, perfurado e inerte. Suspiraria exasperado, a cada uma dessas vezes, mas não fazia sentido suspirar quando ele sequer respirava.
- Eu acho… que eu tava dirigindo. – A essas palavras, os dois pararam e ela olhou-o de um jeito ambíguo. – Amor… acho que eu bati com o carro. – Ele falava em um tom de confissão e culpa. – Desculpa…
- Não precisa pedir desculpas, então… – E abriu seu sorriso mais sacana – Acho que agora saquei uma coisa e sei porque você bateu. A culpa foi minha…. não era você quem dizia que eu ainda morreria pela boca? – E falando isso, começou a rir e apontou para as calças dele.
- Nossa, eu nem tinha notado a braguilha aberta. Quem diria… rigor mortis. – E começou a rir, junto a ela.
- Eu nunca resisti a você de terno, mesmo.
Já fui criança. Corria o mundo como se nada pudesse me alcançar e saltava alturas como se os braços abertos me ajudassem a voar. Foi assim que conheci o ardido do mertiolate e o vermelho do mercúrio cromo. Foi assim que conheci a prisão do gesso, em suas diversas formas, mas também descobri que meu corpo podia se cuidar, com a ajuda certa. E assim, já tive a impressão de que era invencível.
Já fui adolescente. Enfrentava o mundo como se nada pudesse me satisfazer e percorria as sombras como quem cumpre alguma grande missão. Fui o protagonista de mil dramas e centenas de aventuras, desejando um dia que fosse eu naqueles holofotes do cinema. Ia perdendo as certezas e ganhando cada pedaço de chão, onde deixar cair os cacos de uma dúzia de corações partidos. Com papel e caneta, montava mosaicos deles e achava tamanha estupidez linda e sublime. E assim, já tive a certeza de ser mártir.
Já fui perdido. Me desfiz de pedaços errados e encaixei o que dava no lugar. Me esfacelei, reconstruí, melhorei e aprendi. Já odiei espelhos e ganhei sei lá quantos sete anos de azar. De vez em quando, escorregava pela vida só pra maré levar. Nadei pra morrer em muita praia, mas sempre em alguma nova ilha. Quem estava lá, não sei. Em algumas se tinha quem, não encontrei. E ali, tive a angústia de estar só.
Já fui número. Maior quê, menor quê, igual, diferente. Derivei de mim mesmo em equações de incontáveis graus. Fui meu próprio majorante para porcentagens absurdas de sei lá quantos exercícios. Não encontrei botões o suficiente em calculadora alguma, pra ajudar a me calcular, então fiquei com uma de camelô, que apertando soava “pi”, só porque era menorzinha e cabia no bolso. E então, tive a audácia de ser ímpar.
Entre todos os meus heróis, tenho certeza que fui muito melhor como um vilão. Aprendi com meus vôos a queda, com meus delírios, algo perto da sanidade. Nunca descobri, no entanto, o que é ser grande nem se isso me traria qualquer significado. De tantos tombos, levantei-me alguns centímetros mais alto e só. Quando parei pra perguntar, me falaram que crescer era caber numa caixa menor do q eu era. Perder pedaços, pra poder entrar ali e ficar daquela mesma altura. E assim, já tive medo de ser eu.
E se algum dia tive tempo, só sei que hoje tenho pressa. Correndo pra tentar saltar e ser eu, de novo.
Faery Chrysalis, de =Alterren no deviantART.
[clique no convite para ver a imagem no tamanho original]
“Não seriam anjos e demônios peões de mesmo valor, separados apenas pelo lado do tabuleiro?”

Daqueles cabelos, de seu vermelho.
Percorrera-lhe a nuca com as pontas dos dedos.
Descobrindo as costas, a suave pele.
Correndo toques, sensações…
sou seus arrepios.
His Touch, de ~pixiedash no deviantART.
As sombras confabulavam como se à távola, tempos e tempos atrás. Naquela noite, houveram decidido reunir-se para discutir o destino dele… estavam agitadas. Os sussurros vazavam-lhe ao sono, invadindo seus sonhos.
- Mas digo-vos, porque isso vi. Ela deixará de novo e ele sente. Repetir-se-á tudo uma terceira vez…
- Nenhum de nós tem certeza. Deixe de tolices… faria-lhe bem abandonar o passado vez por todas. E o está fazendo, não vê?
- Mas e se algo acontecer e ele se sentir culpado? Não acha q deveríamos ao menos avisá-lo?
- Fala como se ele já não tivesse notado. É o Arauto, lembra? A essa altura, ele já percebeu… mesmo que à força.
A luz do abajur acendia de súbito e todas se calavam, para segundos depois desaparecerem à luz mais forte da tela do notebook, que uma mão preguiçosamente abria, ao lado da cama.
- … vozes cretinas… me deixem dormir….
- O que foi, amor? De novo? – Ela despertava de um jeito lânguido, os dedos buscando-lhe o rosto e acariciando o cavanhaque, mais por instinto do que de ato pensado.
- Não me fala pra buscar terapia… ok? – Ele virava pro outro lado, puxando o travesseiro.
- Quem você acha que sejam? – Ela meio que se debruçava sobre ele, com jeito de curiosa.
- Não tem isso de ser essa ou aquela pessoa… ninguém é um só, nesse estado.
- Então a gente um dia se despedaça? – Aquela pergunta fazia ele rir baixinho e isso atiçava-lhe a curiosidade.
- Não é isso… é que… não é sólido, entendeu? É energia…
- E energia fala? – Ela agora soava incrédula.
- Não... não é falar… mas certos tipos de sistemas que se formam dessa energia, especificamente, adquirem consciência.
- Iiiiiih… tá ficando complicado. Sistemas?
- Sim, ordenações… “aglomerados” que de vez em quando vão além disso.
- E é isso que você ouve? – Ela se ajeitava na cama, sentindo o sono daquele assunto.
- Sinto, mais do que ouço. – Ele bocejava.
- Então instala um vírus nesse sistema e vamos dormir, vai.
- ……… boa noite, amor.
- Doidinho...
Dos desgastados parapeitos, ele observava. Lorde Addam Abria um sorriso canhestro, os olhos perdidos no horizonte, em direção ao abismo que abrira-se ao norte. Sua bainha vazia, ele podia acompanhar o brilho da própria lâmina às mãos do anjo que mergulhava por tantas vezes em meio às sombras que lá residiam. Lado a lado, Troll e nobre podiam sentir as vibrações, os tremores que cada golpe do ser alado fazia chegarem até as fundações do Palácio Elétrico.
***
Pela primeira vez em tanto tempo, suava. O anjo sentia seus músculos retesarem-se a cada golpe e o vibrar da lâmina percorrer a carne de seus agressores como se fossem de papel. A cada girar, o brilho da lâmina arrancando um novo grito. O rosto dele irreconhecível, enquanto urrava naquelas investidas.
O abismo, que proverbialmente olhava-o de volta, estremecia como se cada ser que sangrasse fosse parte dele. Não esperava tamanha força, àquele reino. Suas sombras houveram presenciado a luz daquele ser alado, antes, mas jamais haviam percebido o que se escondia por sob as penas brancas. Ele trazia a ameaça que sempre fôra sua, mas que por tanto tempo precisara manter escondida.
Não tinha a fúria incontida e temerária do Rei Troll, muito menos a sutileza sádica de Lorde Addam. Todo o tempo, estivera ali aquele anjo, mero observador, sem nome ou alcunha. E quando finalmente se desprendera do topo do pináculo elétrico, para defender os portões nucleares da fortaleza, abandonara mais uma máscara, para vestir outra.
E a cada golpe incontido, o príncipe do Vale das Lágrimas retomava toda a dor de que se lembraria. Trazendo dessa memória, seus mais sinceros sorrisos.
Celebra o Palácio, já que não importam as batalhas, quantas tenham sido ou quantas virão, o tempo que passou sempre inspira o que passará.
Moloch, de ~EnferDeHell no deviantART.
- São dias, cara! Faz dias que sempre que eu finalmente consigo algum tempo pra sentar na frente do notebook e escrever, a cabeça simplesmente bloqueia e nada sai. Tem noção?
- Ã-hã… chato, né…?
- Muito! Muito chato. Sinceramente, pensei até em largar a porra toda e dar um tempo da escrita. Deixar as coisas às moscas… mas tbm não quero. Na verdade, eu sei lá o q eu quero, saca?
- Ã-hã… chato, né…?
- Muito! Muito chato. E o trabalho não tem me deixado tempo pra nada. Mas nada mesmo. Se eu parar pra pensar demais, tudo já era. Parece que nem tenho direito a respirar fundo, de novo.
- Saquei… chato, né…?
- Tá nem ouvindo, não é mesmo?
- Você se lamentando? Nem um pouco… chato, né…?
- Um pouco.
- Mas e de resto, como vai a vida?
- Ah, a vida vai bem. Super bem.
Só sendo levemente auto-biográfico-analítico-crítico….