O imenso Troll desmaiara em meio ao bosque, pouco depois de ambos constatarem o quanto já se haviam afastado daquele castelo de pedras negras e frias. Seus ferimentos o tinham vencido, ao menos pelo resto daquela tarde, e ele agora jazia caído ao lado da bela elfa que tanto lutara para salvar. A Sidhe vertia lágrimas, vendo o quão machucado aquele corpo estava e o quanto o esforço de ir resgatá-la havia custado ao seu amado guardião azul. Ele estava tão diferente de como ela se lembrava, mas tinha certeza de quem era. Aqueles toques, aquele abraço e aquele beijo intenso que partilharam em meio à escuridão abafada dos calabouços, que ela jamais esqueceria. Ele finalmente viera salvá-la daqueles captores horrendos, daquela prisão que conseguira quebrar-lhe a vontade. Levava uma mão ao peito, sentindo o pequeno corte onde teria cravado a adaga até o fundo, desistindo de tudo e todos, se ele a tivesse alcançado talvez dois segundos depois.
- Você veio... tanto tempo eu esperei... achava que não havia mais como. Que poderia me ter esquecido, amado. Que poderia não mais alcançar-me e nossas juras de tantas vidas tinham nos abandonado. Me desculpe, meu querido Troll, se eu quase desisti de olhar em teus olhos uma vez mais! Não me deixe só, aqui, por favor levanta e abre teus olhos nesse cair da noite! - O corpo cansado dela desabava sobre aquele tronco imenso, azulado, em meio às súplicas por um suspiro que fosse, dos lábios dele. Quantas batalhas e inimigos não haviam superado juntos, no passado! Ele jamais a abandonara e por tantas vezes se colocara no caminho de qualquer agressor que poderia feri-la. Não haviam tido tempo sequer de conversar e ela sentia tanta falta daquela voz grave e forte do imenso guerreiro. - Por favor, não me deixa sozinha aqui, não de novo... eu não posso mais, meu guardião. Meu amado e feroz caçador. Eu... eu preciso... de você.
Em meio ao soluçar incontido, ela sentia uma mão tocar-lhe as costas e enfim sorria, buscando aqueles olhos de um verde tão profundo e deixando as lágrimas ganharem um tom bem diferente, enquanto se acomodava sobre aquele corpo imenso, marcado e ferido. - Eu nunca a deixei, minha bela dama. Sempre a busquei, mesmo quando não sabia exatamente a quem buscava. - Ele tocava aqueles cabelos e deixava seus dedos grosseiros deslizarem pelo toque tão macio deles... sorria para ela, com os olhos imensos fitando-a, tão feliz de finalmente poder ouvir a voz daquela que tanto sacrificara para encontrar. - Me desculpe se eu demorei, amada Sidhe. Mas precisava antes descobrir quem eu era, para entender o que meu coração sempre buscara, desde o começo. Mas nossas juras, essa promessa que nos une... jamais se apagou... hoje eu entendo porque meu peito estivera sempre tão incompleto. - Aquela grande mão azulada tocava o peito da elfa e o Troll apenas sorria, de um modo tão fraco, sentindo suas forças se esvaindo aos poucos. - Eu não posso continuar, agora... meu corpo se recusa a obedecer... eu... me desculpe, amada Sidhe...

Por um momento ela sentia uma pontada de desespero em vê-lo fechar os olhos, sob as copas daquelas árvores, mas encostava-lhe o ouvido ao peito em meio a um abraço tão forte e apaixonado e podia ouvir o bater daquele coração forte de seu guerreiro. Ele se havia esgotado e ela sabia que ainda poderiam estar sob perigo, mas sussurrava. - Descansa, meu amado... não deixarei que nada lhe aconteça... não agora que finalmente estamos juntos, uma vez mais. - Um som, um estalido em meio ao bosque anunciava que os dois não estavam sozinhos. Ela deixava os olhos percorrerem as sombras daquelas árvores e estreitava-os para enxergar um pouco além, percebendo a movimentação. Não saberia precisar quantos eram aqueles vultos, mas por um momento sentiu que isso não importava. Cansada, maltratada e ainda aturdida, ela alcançava a arma de seu amado Troll, aquela lâmina que atravessara exércitos, levando-o até ela. Precisava das duas mãos para empunhá-la e via o quanto o aço ainda luzia ao brilho do entardecer. Algumas ranhuras ao longo do fio, a ponta quebrada da qual espalhavam-se pequenas rachaduras que aos poucos despedaçariam aquele metal... mas a arma ainda suportaria aqueles golpes. Como tantas vezes antes, se tornava ali uma amazona de olhar selvagem, desafiando quem fosse.
- Por ti, meu nobre guerreiro... - Mordia o lábio inferior, contendo um urro de fúria e deixando a lâmina faiscar contra o chão, correndo para punir aqueles agressores. Contaria um corpo para cada ferida de seu amado. E tinha certeza que não haveriam corpos o suficiente.
--------------------------------------------
Ao final daqueles riscos de sangue, o anfitrião ainda desenha traços pelas paredes da caverna, sabendo que nunca conseguirá escrever o suficiente, deixando seu imenso punho direito, de pedra, continuar a missão de passar a quem quiser ler o significado de cada uma daquelas batalhas. Mas deixava-se sorrir, para aqueles que tão longe haviam chegado dentro de sua caverna.
--------------------------------------------
PS1: imagem -
Melly de *
Hito76PS2: esse conto é uma continuação do post
Sonhos de OutroraPS3: para quem esperava o segundo capítulo do livro de Lara, já está no blog
http://olhosdelara.blogspot.com