Bem-vindos à nova dimensão... seqüenciador de sonhos online.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Entre o Preto e o Branco

* Texto escrito a convite do blog Biscate Social Clube e publicado em 09/12/2012.

Machismo. A palavra me incomoda um bocado e por diversos motivos. Já correndo o risco de irritar quem me leia, aqui, o principal deles é a facilidade com que ela é usada para justificar argumentos nem sempre tão “preto no branco”, assim. Mas somos uma sociedade maniqueísta, que gosta de polarizar questões, dessa forma, e com isso cobrar que uma pessoa (e TODA pessoa, aliás) esteja deste ou daquele lado. O fato é que não existem apenas dois lados. Toda questão social tem seus 2, 20, 50, 250 tons... os infinitos pontos da reta. E o quê isso tem a ver com o livro “50 Tons de Cinza”? Bem pouco, em não ser uma narrativa nada sutil, mas muito em contar uma história pra lá de machista.

Quem sou eu? Aqui e para este texto, eu sou Mestre Addam, um fetiche que descobri relativamente mais cedo que a maioria das pessoas que conheço. Sim, ser esta persona é um fetiche meu, e dos mais prazerosos. Dominador, torturador sádico e mentor no uso de agulhas e facas em práticas eróticas. Machista? Sempre me pergunto isso e acho que não é algo que eu consiga responder, mas gosto de pensar que não. Que em toda mulher que já veio a mim para cenas e/ou relações sadomasoquistas havia o desejo consciente desse mesmo fetiche. Me apóio em um dos preceitos da prática de Bondage, Dominação e Sadomasoquismo (BDSM), de que o divisor de águas entre o fetiche e a violência doméstica é que toda prática seja Sã, Segura e Consensual. (SSC) O problema é que, como em meu primeiro parágrafo, são conceitos abstratos o suficiente para também entrarem na dança de que mero “’ser’ ou ‘não ser’” pode falhar em definir certo e errado: SSC ou não-SSC?

Sob esse ponto de vista, o título do livro vem então cheio de promessas, certo? São pelo menos 50 tons da coisa, que veremos em nuances delicadas, enquanto nos deixamos envolver por esses tantos desejos, sabores, sensações. Críticos e fãs dizem que é uma obra que vem desnudar e escancarar os segredos de toda mulher, com suas fantasias. Mas se for acreditar nisso, é ainda mais preocupante.

Temos uma protagonista, jovem adulta chamada Anastasia (pelo simples motivo que os editores disseram à autora que ela não poderia publicar como no texto original, em que ela se chamava Bela), que na realidade só é maior de idade em seu RG, mas com a clara mentalidade de adolescente deslumbrada de 16 anos. Ela é uma mulher certa de suas convicções. Do outro lado, Christian Grey (que, da mesma forma, os editores deixaram claro não podia mais se chamar Edward) é um homem bonito, com aquele desdém altivo que uma adolescente de 16 anos acha o máximo em seus ícones pop e, muito importante à trama, rico. No entanto, Christian é parte de uma subcultura perigosa – e atraente – de sadomasoquistas (porque os editores nem precisaram dizer que a autora precisava mudar a parte “vampiros”, da coisa).

Sim, o texto surgiu como uma fanfic erótica de Crepúsculo, mas essa não é sua pior característica. Releia o parágrafo anterior e você verá que eu coloquei a importância da riqueza do galã acima de sua característica fetichista. Ana, a protagonista de fortes princípios e toda sua certeza adolescente do que quer da vida, claramente rejeita os fetiches de seu “príncipe encantado”. A princípio. Mas Christian sabe bem ‘comprar’ a consensualidade da parceira, ao longo de uma história que nem tenta esconder seus tons (!!!) de material girl – Madonna, excelente para a trilha sonora do filme, hein! –, demorando-se em detalhar e descrever marcas e patentes de todos os presentes que a aos-poucos-submissa Ana vai ganhando de seu cada-vez-mais-Mestre Grey.

Méritos? Vários, no entanto. O livro sucede bem em trazer à luz práticas tão tabus quanto interessantes, ainda que claramente não seja essa sua intenção. A aceitação do fetiche é talvez seu maior ganho, ainda que (ao menos o primeiro volume) encoste apenas na casca de uma gama de práticas possíveis. Resume BDSM a bem pouco, sem deixar sombras o suficiente para que leitores vislumbrem o universo de outras possibilidades, em sua própria imaginação. Apresenta a ritualística por trás da relação Dominador/submisso (D/s), um interessante movimento de tentar ordenar o caos de sensações e desejos que envolvem a interação entre Top e bottom (termos genéricos, facilitando a identificação de papéis sem distinção de gênero, das partes), presente na forma de um contrato entre as duas personagens – o qual Ana recusa-se a assinar, claro.

Em relações D/s, a questão contratual é importante no sentido em que não há consensualidade sem que ambas as partes possam estabelecer seus limites – bem como a disponibilidade a testá-los ou estendê-los. Não é algo que necessariamente esteja colocado em papel e tinta (embora possa ser parte da diversão, estar), mas cabe ao Top explorar essas barreiras e dar ao bottom a segurança de que serão respeitadas. A existência de uma palavra (ou gesto) de segurança, estabelecida como “freio de mão” a qualquer cena ou prática é normalmente o que mantém essa noção do ato consensual, não importa o fetiche sendo explorado.

Portanto, é quase correto dizer que “o poder está nas mãos da submissa”. Uma premissa muito lógica, com todo o exposto aqui, e uma percepção que o livro arremessa janela afora, com a “consensualidade comprada” de Anastasia. Sua submissão física e psicológica a seu Dono está claramente condicionada ao deslumbre causado pela condição financeira do mesmo e a uma horrível ligação disso com a noção romântica de amor. Críticos da obra dizem que o problema do livro está em uma mulher ceder a posição de igualdade com seu parceiro, na cama. Digo que é bem pior, em que ela cede a sutil superioridade que as fantasias de uma submissa têm sobre os desejos últimos de seu Mestre.


Não defendo aqui que o Top seja estritamente dominado pelos limites de um bottom, mas que é o seu maior desafio moldar sensações e desejos da pessoa submetida aos seus prazeres, criando a sensação da perda de liberdade. Seja usando de vendas, algemas e mordaças ou da vigilância quase opressiva de um olho de poder foucaultiano. (em um aspecto bem mais psicológico do ato da dominação) É delicioso – e me permito o deslize analítico, aqui, por que é mesmo! – ver o comportamento e a postura da pessoa dominada ir mudando, à mera presença de uma figura que lhe chega cheia de regras, vontades e exigências, sem que essa sequer pronuncie a primeira palavra. Mas por que isso é parte de um fetiche, um contrato entre os dois. Qualquer dependência inerente a essa relação precisa estar ligada à adrenalina, ao prazer, ao desejo (até mesmo da dor), à afinidade entre as partes.

No primeiro volume da trilogia de 50 Tons, o contrato toma tons de negócios, meramente. Grey com seu dinheiro (e todo o glamour que ele traz), Ana com seu amor. Condicionar o fetiche a qualquer dessas duas coisas é, para mim, o principal desserviço do livro a seus leitores. Ver surgir, em meio aos seus fãs, frases como “sem amor e romance, BDSM não passa de violência doméstica”. Não é preciso haver amor, para que haja o sentimento (mesmo meramente teatral) de posse, mas, principalmente, não é preciso haver posse para que haja amor. O fetiche da posse do outro, a excitação sexual com esse pertencimento, é até muito mais saudável que a assumpção formal dessa mesma posse por causa de qualquer papel assinado em cartório.

Sinceramente, falho em ver qualquer tom de são, seguro ou consensual em muitos casamentos e relacionamentos tradicionais, por aí. Mas ir além de apenas 2 ou mesmo de 50 tons da coisa pode mostrar toda uma dissonância (e distância) necessária, entre amor e sexo.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Tons dissonantes

"Mas esse jogo é para ser jogado por dois afinal!"

Tinha falado aqui sequer sem pensar. Só podia. Andara lendo as coisas erradas, não é mesmo? Mal podia entender qual realmente era o seu papel, ali. Pagaria o preço por trazer tais concepções àquele quarto?

Um estalo forte. A vara fina parecera inofensiva, até aquele primeiro golpe. Teu suspiro cheio de surpresa e medo, mesmo abafado. O corpo balançava-se à frente, na fútil reação de tentar escapar. O bambu cortava o ar uma segunda vez, agora trocando de coxa. Era quase uma agulha, de tão fina a dor. O frio da pele nua deixando de ser, no calor daqueles golpes. Agora já quatro deles. Lados alternados.

O silêncio entre uma música e outra é ensurdecedor... mas não pior do que o que precede cada golpe. Agora um piano... seu corpo por um momento sentindo a música, antes de ouvi-la... a primeira frase te cortando a mente: "What do you do when you know something's bad for you... and you still can't let go?" O próximo estalo sobe, pela sua perna, ameaçador... consegue sentir a venda umedecendo de sua dor. SUa respiração quer falhar.

Um puxão aos seus cabelos e os dedos enluvados soltam-lhe a mordaça, deixando que ela escorra para fora de sua boca, toda ansiedade, dor e saliva...

- ... dói...


Por um momento, apenas a canção. Apenas minha respiração profunda... seus lábios ainda tão úmidos da mordaça, como se deixassem escorrer tua vontade... o couro negro que lhe acerta uma nádega é o da luva, agora. A mão pesada, em outra punição, a pele esquentando mais... percebe quando me inclino à sua orelha e digo, ainda mais baixo.

- Não é assim que se fala com seu Senhor, cadela. Você continua distraída. Pensa apenas na dor e não lembra como se portar. Enquanto for assim, será só isso: uma puta submissa.

O silêncio te oprime novamente, o som ficando mudo... Minha respiração calma demais. A próxima música traz pouco alento à tua dor... demora a tentar ouvir o que ela diz. A mente na frase "Is your faith in me?"

- Agora, como é que se fala com um Dom, vadia? - Por um momento, sei que você deseja que eu pelo menos aumentasse a voz. Gritasse com você... qualquer reação.

- Perdão, Mestre...

A luva de couro te marca de novo, vermelha... sua reação trazendo a lembrança dos nós aos pulsos... seus braços erguidos, acima das costas... a corda passada a uma viga de madeira, no teto, que sequer range ao seu sofrimento.

- Você quer ser mais que isso? Quer ser minha? - Novamente os lábios tão perto de seu ouvido... as palavras deixando minha boca na respiração cálida, q te lambe a face... que se parece tanto com o calor que lateja em suas coxas... em suas nádegas expostas aos meus caprichos.

- Dói! Mas sinto prazer, Mestre. Por favor, Mestre. - É você quem quase grita, alheia ao meu sorriso de satisfação. Sua respiração tenta retomar o controle, aos poucos.

- Quase isso, cadela... 

Novamente o puxão forte aos cabelos, antes a cabeça inclinando-se para trás, seu corpo arqueando contra as amarras que te mantêm de pé no meio do quarto escuro... meus dedos soltam a venda de seus olhos, deslizando a seda pelo rosto. Uma gravata, você se lembra. Usara minha gravata, pra te vendar, assim que entramos no quarto.

Seus olhos brigam contra a pouca luz do lugar e tens o sobressalto. Meu rosto bem à frente do seu... demora a lembrar-se de que não pode me olhar nos olhos e, por um momento, fecha os seus, como se isso fosse mais rápido do que desviá-los.

- Boa menina... agora, como é que se fala? Não seja uma vadia ingrata.

- Obrigada Mestre. Usa-me da maneira que melhor lhe agrada Mestre. Eu... eu quero mais...

Observo teu olhar baixo, tremendo pelo chão como se buscasse qualquer outro foco e sorrio.

- Ainda pode ter utilidade, pra mim, mas muito a aprender. - Me levanto... Você percebe q ainda não tirei o terno. As luvas, o tique de firmá-las às mãos, deixando o som do couro enervá-la. Sua cabeça baixa deixa o olhar fugir por seu corpo. Ali, nu, emoldurado por teus cachos castanhos... Os seios firmes, ainda intocados. Por um momento, se lembra da dor dos pregadores aos mamilos e estremece. - Anseia pela dor, submissa? Para merecer meu prazer? - Como se não disposto a esperar sua resposta, meus dedos lhe abrem a coxas, tocando seu sexo... O couro abrindo os lábios, em algo que em nada seriam caricias... levo-os, melados, até seus lábios. - Sente o cheiro, puta? Seu sexo ama essa dor.

- Mestre, tira as luvas. Por favor Estou muito excitada agora, consuma o que está aqui ao seu dispor.

Como se quase por instinto, um tapa lhe atinge o rosto. O calor dele te toma, por um instante, e em seguida apenas a sensação resta... Sem marcas ao rosto, você sabe que não sou tão descuidado. Me agacho, bem à sua frente, e a ordem soa clara. - Olhe em meus olhos, puta submissa... - O rosto bem à frente do seu, na mesma altura. As pernas flexionadas... Vejo tuas lágrimas e sorrio. Os dedos de couro agarrando seus mamilos, você percebe onde iam tarde demais e gela. Contém o impulso fútil de tentar tirar o corpo. Aperto-os firmemente, a dor aguda te levando a respirar fundo, antes de um misto de grito e gemido. - E você acha que merece meu toque, puta? - Torcendo, puxando com firmeza. - Então implore! Sofra para merecer que eu tire as luvas, cadela, implore por mais dor. - Seu corpo balançando contra as amarras, você aperta os olhos, a dor te tomando em ondas. Minha voz, uma ordem incisiva. - Te mandei me olhar nos olhos, escrava!

- Quero senti-lo dentro de mim, Mestre! - Os olhos ainda fechados, um suspiro profundo e resignado, os lábios mordidos. A voz baixa, fraca... - Olha... acho que não sirvo pra ser escrava, Senhor.

Em meio a suas palavras, minhas mãos deixam seu corpo e me ergo, começando a tirar as luvas. - Acha?

- Mestre, eu tô aqui cheia de tesão. Quero que me possua agora. Me açoita, me morde. Mas mete. Bate. Mas depois me beija. De maneira forte. Urgente. Mas eu não aguento mais. Te quero dentro. Pulsando. Me agradecendo pelo quanto fui obediente até aqui. - O olhar era de súplica, mas ardendo de desejo, ousando buscar o meu. Uma mão puxando a corda, em um movimento rápido, você mal vendo quando a outra tira do bolso do paletó a faca, cortando a amarra que começava a folgar-lhe ao redor dos pulsos.

- Se você acha que eu deveria lhe agradecer por tua obediência, está repleta de razão. Eu estava errado em chamá-la de puta submissa, antes. Você não é submissa. - Rindo baixo, guardo a faca, enquanto você se ajoelha ao chão.

- Mas sou sua puta, agora. Quero prazer... quero seu prazer.

Sorrio. - Teu erro estava claro assim que começamos, menina. Esse jogo não é para ser jogado por dois. A mesa é minha. A banca sempre vence.

- Obrigada, Mestre.

- Você anda lendo as coisas erradas.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Weaver


A dor é lancinante.

O cheiro é o meu sangue... ferro. Escorrendo pelas finas cordas como extensão de mim, querendo pintá-las. Como vibram! Essa melodia de estrofes precisas escondidas no caos, cortando dedos em desafio à carne. Um correr súbito queima, uma linha fugidia, antes que eu consiga puxar e retomar o controle. Os dedos se fecham mais, ignoro a dor.

Quisera puxar tudo à frente e fazer das linhas cordas. Das cordas, arreios. Mas não funciona assim. É um composto de forças, tensões, conexões. Qualquer linha que arrebente e é um mergulho em desastre. A história do mundo é feita de desastres e escrita por quem correu mais rápido. A primeira linha partida libera a tensão de tantas outras. Tudo posto em movimento rápido demais e sou eu retalhado no chão.

Não. É só ouvir a melodia. Esperar a próxima estrofe conhecida e fechar os olhos para o refrão. Deixar correr as linhas que se ameaçam partir, ainda que a dor seja contra. Não é puxar para si nem ver todas as linhas... é alcançar as que importam e tomar-lhes o rumo, em pequenos toques. Entender onde as notas se repetirão. Eliminar dissonâncias da pauta original.

É tudo tão sutil... como precisa ser com as coisas belas... como os verdadeiros males também o são, quase dormentes. Mas volto a reconhecer os tons. O cheiro incomodando mais que a dor, no respirar fundo.

Cabeça, enfim, fora d'água.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Vícios

- Ansiedade, disforia, irritabilidade, agitação, taquicardia, hipertensão...

- Sério? Tudo isso, então? E junto?

- Pode acontecer.

- Aaaaaahhh... explica-se, então.

- O quê?

- Minha condição... é abstinência.

- DEUS DO CÉU! O QUÊ VOCÊ ANDOU USANDO, QUE EU NÂO SEI? AIMEUDEUS, AIMEUDEUS, EU SABIA! SEU CRETINO! ESCONDENDO ALGO DE MIM, ASSIM! NEM PRA ME PEDIR AJUDA, É ISSO? E A NOSSA CONFIANÇA? NOSSA VIDA JUNTOS NÃO IMPORTA, PRA VOCÊ...

- Mas que outra explicação haveria? Vivo irritado, ansioso, agitado.. e os problemas do coração, lembra.

- EU NÃO SEI O QUE FAÇO COM VOCÊ, DEPOIS DE UMA DESSAS!

- Só não me deixa...

- HÁ QUANTO TEMPO?

- Desde sempre... todo dia, segundas a sextas...

- AIMEUDEUS, SÉRIO! Pera... como assim, de segundas a sextas? VOCÊ AINDA USA NOS FINAIS DE SEMANA, NÉ?

- Sim, uso... e de noite... tratando essa abstinência de você.

- ............................... bobo.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Humildade… *ao calabouço*

Faz tanto tempo que ele mal se lembraria, hoje… mas foi tão marcante quanto inesquecível, não? O local era escuro, a música era boa, a noite era fria, os olhares nem tanto. Admiravam-na como a uma obra prima, enquanto correntes a prendiam à imensa cruz negra, no centro da pista. Os longos cabelos negros eram sua única defesa, sua única máscara, contra aqueles olhos curiosos.

Era sua primeira vez, ali, e dava pra ver como ela tremia, pobre bichano. Perdida entre a vergonha e a excitação, restava-lhe apenas a confiança em seu algoz. Não deixava-se tomar pelo pânico, havia sido treinada para ignorar todo o resto. Mas era difícil. Sorria, cada vez que ao circundar a cruz o olhar Dele buscava o seu rosto, mas escondia esse sorriso de todos. Ali, entre as ondas negras de seus cachos, era como se olhar algum daquela pista cheia ousasse penetrar.

Imóvel. Não impassível… cada arrepio, cada temor, tudo tornando-se aquele turbilhão. Os momentos longos que ele não a tocava, não cruzava sua vista, esses lhe seriam intermináveis. Mas um sinal a alcançava. A música ambiente trocada para algo de um ritmo mais forte. O DJ respondia ao que quer que seu Senhor estava prestes a fazer.

Nem um grito. Boa menina. O couro lambia-lhe a pele das costas expostas, os seios pendiam dores às pontas de firmes prendedores de metal, unidos por sua corrente. Mas Ele não a castigava, ali. Era por seu merecimento. Por sua dedicação. Ela sabia que cada tapa, cada chibatada, cada puxão em seus seios, trazia orgulho ao Mestre. Que cada marca aquela noite era uma medalha.

Eram toques de seu Dono, pq ela lhe dedicava tal posse. Sentira-se grandiosa quando a cada chicotada da longa tira de couro, respondia a Ele “obrigada, Mestre”. Apesar de toda a dor, da pele vermelha, eram provas daquela confiança, daquele laço. Eram impulsos de um prazer que queria lhe tomar, acima de tudo. Sentia as mãos de seu Dono em sua nuca, por entre os cabelos, e por pouco não ronronava.

O pânico. Gritava, enfim, e não era de agradecimento, mas pela surpresa… a dor vinha inesperada, o puxar forte à nuca e a cabeça caía-se para trás. Estava exposta, ali. Ele desnudara-lhe até mesmo a máscara, e agora cada um daqueles olhares vinha lhe castigar.

E a primeira lágrima rolava-lhe ao rosto…

sábado, 17 de setembro de 2011

Da besta em mim *ao estilhaçar de correntes*

Eu te caço, te mato, te asso
coisa dessa fome, só minha
no calor da cama, te faço
te encontro, nessa mistura.

Culpo algo teu, a lua cheia,
vindo refletir nesse sorriso
salivando em presas, ria
sou essa besta, um salto.

E se te caço, por ti caço
se te mato, é com a boca
seu sangue, que eu fervo
olfato preso em curva tua.

--

Texto inspirado pela canção "Howl", de Florence + The Machine

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Carpe Noctem *ecos distantes*

O escuro da noite. 3h da manhã, a hora do lobo. Ir pra varanda de casa, observar a cidade que ainda se apaga. Ao longe, muito do que jamais dorme, luzes perpétuas contra o breu do céu. Disputam-se como estrelas de chão.

Mas há o silêncio, ao redor. Sentado, sentindo a brisa fresca de verão, ouço apenas algum ar condicionado, ninando o sono de quem seja, constante e grave. Algum carro ao longe, apenas de leve. Fecho os olhos na lufada de ar, súbita. Dá vontade e eu abro as asas, mergulhando dali. Percorrendo ruas, nisso de tentar abraçar tudo. As sombras vazam, por entre os prédios apagados, como névoa. Curvam-se aos postes amarelos e alaranjados, saudando-me em praças desertas.

De tantos sonhos por trás das portas, saem quimeras pela noite, brincando livres, dançando e desafiando o olhar incauto a crer no que vê. Abominações tomam conta de cada curva, de cada quina, fingindo assustar. Escondendo-se dos faróis acesos de um eventual motorista.

Mas o mais fascinante é o silêncio. Me perco em sinfonia. Fecho as asas e mergulho. Me espatifo no asfalto frio. A noite grita e eu sorrio.


Dream about falling down, de *bucz no deviantArt.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Trilhas do deserto de Athas – Dark Sun

O vento quente do deserto soprava por sobre as imensas muralhas da cidade, alcançando o chão de areia branca e soprando canhestro em um rodopio, pela arena. De um dos corredores escuros de pedra, três pares de olhos tentavam acostumar-se à claridade. Ao forte vermelho do céu. Já era fim de tarde e o sol vermelho descia a oeste. As pessoas já ousavam sair e assim, os balcões estavam cheios.

A arena era imensa. Homens-livres de todos os cantos da imensa cidade-estado de Urik lotavam o lugar, em um barulho incessante, zumbidos ecoando. Só havia silêncio no corredor de pedra. Os três gladiadores respiravam profundamente. Um deles, um homem livre, jamais adentrara tais jogos. Mas precisava estar ali. Abaixava a cabeça em seu caminhar, pois lhe fôra permitido entrar com sua besta de montaria, um imenso inseto com seis patas e enormes presas afiadas.

O segundo não era um homem. O corpo atarracado, definido em músculos duros e pesados, a cabeça lisa e o couro sem pêlos, protuberante. O rosto quadrado. Heranças do sangue forte dos anões, da parte de seu pai. Um meio-anão era um escravo valioso, em qualquer parte do deserto. Trazia às duas mãos uma imensa espada de pedra obsidiana, negra, as lascas afiadas enfileiradas em um corpo afinado de madeira enrijecida ao calor.

Certamente o menos humano dos três guerreiros, o terceiro assemelhava-se mais à montaria do primeiro gladiador, mas tinha a altura de um homem e apoiava-se de pé, com dois pares de braços e mãos segurando duas grandes lanças de madeira e pedras de jade afiadas. Suas mandíbulas eram presas amarelas, movendo-se como se em antecipação, e os imensos olhos insetóides pareciam poder observar toda a arena, quando enfim os três saíam para a luz rubra do sol. Um Thri-Kreen das planícies vermelhas.

Do outro lado do chão de areia branca, o imenso pórtico já encontrava-se aberto. Do lado de fora, o vento, um calor incômodo, levantava a areia, rolando pelos braços dos bravos desafiantes. Um rugido e o sobressalto. Como se o estampido de uma explosão, arremessando os três à frente. Corriam ao centro do espetáculo, de encontro à besta, imensa. Pareceria um leão, mas a juba recedera a um pelo mais curto, que estendia-se para trás pelo dorso. A boca, enorme, um conjunto de presas afiadas do qual os dois caninos inferiores protuberavam como adagas afiadas. Duas fileiras de olhos, três pares, negros como a lâmina do meio-anão.

Ao segundo rugido grotesco, o som das arquibancadas cessava. Deixava espaço aos urros de três gladiadores. Um tomando firmemente as rédeas de sua montaria e colocando-a em carga, erguendo a lança em punho. Os olhos do segundo tomando um estranho brilho esverdeado, que refletia-se na escuridão da imensa espada, os dedos firmes ao seu cabo de osso. O inseto percorria o grande espaço entre ele e sua presa, girando as hastes de suas duas lanças, antes de saltar por sobre a fera. Mergulhavam os três, rumo à glória… ou à morte.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Cercear sonhos... *do diário de bordo*

Havia uma menina que guardava seus sonhos em aquários.

Era lindo, ver como os admirava, de trás dos vidros, tão cuidadosa. Polia, trocava-os de lugar, mostrava cada um que tomava-lhe o brilho do olhar. Dançava por entre aquelas bolhas, sorridente e bela, rodopiando nas perfeições de suas náutilas fantasias.

Mostrou-me cada um, pouco a pouco... Não acho que todos, pois eram muitos. Mas aqueles que tinha de mais encantadores, foi trazendo-me um a um. E assim eu os admirava, janelas cheias de ansiedade e desejo. Pedaços de mundos construídos aos poucos, incompletos. E foi com todo receio possível - mas uma curiosidade quase infantil, que toquei alguns.

De começo, punha a mão com receio. Leves ondulações ao fio da água. Deixava-me ser parte, ainda que fugaz, daquelas imagens. Ela ria e se permitia levar. Divertia-se e por vezes olhava-me como se os dedos lhe tocassem a pele, também. E no meio daquela estranha folia, um pensamento incomodara-me.

"Onde guardas os teus temores?"

Dissera-me que não os tinha. Que era apenas aquilo que ali me mostrava. Que nada mais guardava, porque nada mais importava. E que naquele lugar, sabia jamais haveria o que temer. Sorria, em meio às palavras, do seu jeito infantil.

Apavorei-me. Os olhos arregalados, pedia a ela que escondesse tudo aquilo, rápido. Que me ajudasse a carregá-los para bem longe. Confusa, não perdera o sorriso.

"Teus temores correm soltos... Podem vir ter com teus frágeis sonhos, não percebes?"

Mas apenas sorriu uma vez mais, como quem me pediria calma. Eu ali, na certeza de que ouvia passos, mil deles, repletos de grunhidos e terríveis urros de ameaça. Mas palavra alguma minha a fazia entender. E foi assim que a deixei, ali, tão bela quanto frágil.

A última vez que a vi, estava ainda lá, abraçada ao último de seus aquários, sentada ao chão repleto de cacos e sonhos. Mas ainda sorria, como quem quisera dizer-me que o mais precioso de todos estava a salvo.

Acho que aquele ali, ela nunca me mostrou.

Hoje penso que sonhos existem para serem despejados ao mar e ao vento, libertos. E mesmo assim, egoísta, guardo meus melhores comigo.

 
Flow, de ~maaria no deviantART.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Semi-ótica

É assim mesmo, pq é estranho… Você que costuma pensar demais nas coisas e em si, acaba concluindo que sabe o suficiente para estar preparado para tudo. Porque formou um mundo de conclusões ao seu redor.

E o quê seria de cada um de nós sem tamanha tolice? Se definimos o mundo em tantos nomes e certezas, é porque precisamos delas? Provavelmente sim. Mais provável que nos seja apenas natural, não é mesmo? Mas quê tamanha e absurda natureza é essa, do pré-julgamento? De delinear tudo com significados? De procurar tanto as fronteiras de tudo?

- A gente faz tudo isso mesmo?

Faz! E sem nem pensar!

- Então pra quê você tá pensando tanto a respeito?

- É assim mesmo, pq é estranho… Você começou muito bem, não acha? Mas talvez tenha ido longe demais.

- Prefiro você assim. Em silêncio.

Não é nada natural, eu ficar em silêncio.

- Isso que faz ser mais precioso.

- Te amo, seu bobo.

(resposta singela a um excelente post)

 

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

I´m bringing sexy back…

- Eu não queria… – Ela disparava.

- Mesmo? – Ele apenas abria seu sorriso vago.

- … mesmo. Ao menos no fundo, sabe?

- No fundo? – Erguia uma sombrancelha e ria dela, ao perguntar aquilo com um ar de toda a malícia do mundo. A moça que tentava soar tão cheia de dúvidas…. – Péssima escolha de palavras, não acha?

- Você pode ficar rindo, aí… mas não sabe o que eu penso, tá? – Demorava a ligar os pontos, em sua estúpida indignação. – Ah, bobo! Não é disso que eu tô falando…

- Mas eu sim. O tempo todo… desde a primeira palavra que te disse até essa última. Até o próximo ponto final.

- Mesmo? – Ela encabulava, de súbito. Era possivelmente a coisa mais direta que ele podia lhe dizer, e certamente a mais canalha… mas era a franqueza da situação que a fazia sentir-se tão nua… – Então eu sou apenas isso aqui, né? – Puxava o lençol por sobre o corpo, como se quisesse se esconder dele. – Não sei se gosto disso, viu?

Ele se aproximava dela, com ares felinos, mãos sobre a cama… – Mas eu sei… e você gosta. Pode não querer admitir nem gostar de fazê-lo. Mas estamos aqui, não? – Poderia devorá-la com aquele olhar, por cima do imenso sorriso de besta. – E, “no fundo”, acredita… eu sei exatamente o que se passava. – Insinuava uma das mãos por baixo daquele lençol, em sinal de clara ameaça.

As bochechas dela ardiam, de tão vermelhas, mas o corpo reagia de outra forma. Aquele rapaz em nada fazia seu tipo e ela mesma se perguntava como fôra parar ali. Mas ela queria. – Tá bom… você acha que sabe tudo, né?

- Se eu estiver errado, tudo bem. É só você me mandar parar AGORA, que eu paro.

Ela mordia o lábio inferior e respirava fundo, sentindo tudo que aqueles dedos lhe ligavam, à pele. – Não… faz aquilo na banheira, de novo?

Ele sorria, mais para si do que para ela. Aquela guria em nada fazia seu tipo, mas tinha curvas difíceis de ignorar.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Navegantes

São multidões sobre galés imensas. Balançando por entre ondas e pedras, sentindo o vento soprar sal em suas faces. Do topo do mastro, todos os gritos são de aviso. Perigo e medo. Cada puxar dos remos vindo da batida de um tambor imenso. Cada chibatada, uma risada aberta às costas.

É um mar de Leviatãs despertos, espertos, balançando tentáculos imensos e esticando-se em um espreguiçar, bem sob seus pés. Arriscando derrubar os algozes de seus tronos, para detroçar tudo em seguida, num naufrágio violento. Devorando tubarões moribundos e baleias já anciãs. Os sons do desespero apenas vencidos pelo bater do tambor.

São isso, naus pulsando impulsos pelo azul infinito, sobrevivendo em cada volta, a cada redemoinho. Remando sem olhar para trás. Seguindo meio a maré, meio as voltas de seus braços. Existindo, como se apenas existir lhes bastasse. Admiráveis em todo seu esforço, em cada gota de suor.

Olhassem em volta, veriam o quanto são enormes, tão maiores que seus captores… mas tão menores que seus Leviatãs.


Leviathan, de *r7ll no deviantART.

sábado, 14 de agosto de 2010

Nevoeiros...

Vem o frio, tão acolhedor numa tarde cinzenta, e parece que tudo se fecha. O mundo silencia. Não longe demais, possivelmente de uma gaiola qualquer, uma ave se pronuncia. O vento pela janela, a pele arrepiando-se e um calafrio sobressalta-me.

Ela apenas ali, deitada, dormindo tão bela. Olhá-la traz por reflexo a língua aos meus lábios. A silhueta por sob a coberta, respirando profundamente. Sente-se existir apenas em algum sonho, e isso a torna tão distante de mim... É bela, na pele alva e macia. Puxa as cobertas, sob uma nova lufada de ar. Minha respiração presa.

Tudo é cinza, senão ela. Tudo são cinzas, fora dali. A única cor vem da vida que pulsa sobre aquela cama. Lá fora, tudo arde e vai aos poucos deixando de existir... e mesmo assim, o vento ainda é frio. Um deserto de almas murmurando e gemendo, arrastando-se por entre os escombros de glórias passadas.

Talvez haja outras vidas, lá fora... mas por hora, me conforta demais simplesmente vê-la dormir.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Her y cysgodion

Eram muitos. O crepúsculo aproximava-se e, enfim, seria tempo de lidar com todos eles. A besta ressoava em sua respiração compassada, sentindo a ansiedade daquela espreita prestes a projetar-lhe as garras à mostra. Mas ainda não era hora. Faltava tão pouco.

O olhar felino divisava oito sombras, à luz poente. Três delas, enormes como árvores, caminhavam de fazer tremer o chão. As outras cinco, menos assustadoras apenas pelo tamanho, mas de aparência tão aterradora quanto, hora apenas observavam, hora farejavam o espaço ao redor. As mandíbulas negras escorrendo de um visco medonho. Os olhos, tantos deles, como se vidrados no horizonte.

- Oito ameaças. – Preocupado, o homem ao seu lado avisava, em tom de medo.

- Não… oito degraus. – A besta praticamente rugia, olhando a paisagem por sobre o ombro e percebendo os últimos raios de luz deslizando para longe, por sobre os prédios. – E tá na hora de subir.

Avançava silencioso, as lâminas agora totalmente à vista, por vezes arranhando o chão, quando abaixava-se para fora da vista de suas presas. Seu olhar aguçava-se enquanto o homem o seguia de longe. A fera apoiava firmemente as pernas e curvava as costas, a respiração tornando-se um leve chiado. E a cada bater acelerado, contava um a menos para a investida.

Jogava-se, uma vez mais e com a mesma certeza de todas as outras, em um turbilhão de vida.


Werecat, de ~Teotocchi no deviantART.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Ecos crescentes

BEIJA-FLOR *murmúrios do jardim dos sátiros*

"Pétalas de rosa". Era meio tarde para aquela constatação, mas enfim eu conseguia definir-lhe os lábios. Teria sido a melhor coisa a sussurrar logo depois do primeiro, até do segundo beijo. Mas a mente só havia chegado lá após tantos outros. Pareceria forçado, então deixei a imagem morrer em minha mente e simplesmente continuei aquele abraço tão delongado.

"Você está de blusa lilás". O melhor, imbatível, foi a expressão dela, reagindo àquela frase, ainda no celular. De alguma forma, eu havia ido em desvantagem estratégica. Sem fotos, sem sequer uma descrição esforçada, para buscar em meio à multidão. Ela tinha visto fotos, conhecia meus olhos e aquele sorriso 'marromenos' das típicas fotos forçadas. E no entanto lá estava, caminhando com toda a urgência de encontrar algo em volta, sentindo-se acuada em ser reconhecida. "OK, cadê você?"

Agora, aquele momento parecia distante o suficiente para ter fugido mesmo à memória recente. Os dois nos havíamos sentado ao restaurante e concordado em um ponto interessante: não havia fome. Ao menos por nada do cardápio. Aqueles olhos me diziam tudo o que precisavam, em meio a uma conversa até meio tolinha, mais com jeito de passatempo do que para dizer qualquer coisa realmente sagaz ou impressionante. As cantadas vinham em farpas de significados, dos dois lados e sobre a mesa decantava a ladainha de quem sente que poderia estar usando melhor seu tempo. Goles do refrigerante ajudavam a descer um pouco toda a ansiedade entalada à garganta.

Quanto tempo se havia passado? Perdido naqueles momentos, eu comecei a esquecer de olhar o relógio à tela do celular. Meus olhos se ocupavam em muito mais. Percorriam aquela pele em carícias, sentiam o pescoço macio arrepiando-se, tocando-o como se fossem meus lábios, deslizando para os cabelos, como dedos. Podia ouvi-la suspirar, enquanto essas carícias olhavam-na aos ombros, em breves lambidas e mordidas mais lascivas. Os braços, o entrelaçar de dedos, aquele colo com jeito tão acolhedor. Mas deixei o olhar demorar-se em acariciar aqueles seios. Ela notava e sorria, com jeito de safada, ajeitava o decote como se convidasse a me perder ali. Podia sentir o quanto e como eu a tocava, mesmo em meio ao local tão cheio e os dois ainda tão vestidos. Ruborizava, mais porque era uma reação graciosa e provocante do que por vergonha. Aquele colo... as coxas pressionando firmes contra a calça, marcadas, cheias de promessas escondidas. Eu poderia tomá-la com o olhar, mas fora roubado em meus instintos, para um novo beijo, tão intenso que por um breve momento deixei a mão brincar como os olhos e arrancar suspiros mais intensos e um rubor genuíno.

Aquele olhar, no entanto, certamente jamais faria jus ao desejo que agora meus dedos expressavam. A chegada ao quarto, tão afoita, os beijos perderam quaisquer travas e agora explodiam aos lábios, em mordidas, lambidas e deslizares. Escapavam às bordas dos lábios, como se um prestes a devorar o outro, enquanto os dedos percorriam aquela pele macia, já insinuando-se por sob as roupas, no rompante de arrancá-las e expor-lhe a pele. Os seios fartos deixando de decorar o vão da blusa para sentir as carícias tão firmes, os dedos em toques e apertos e os lábios mais que suspiros. Jogando-a por sobre a cama, deixo-me percorrê-la toda, agora nua, e sinto aquele corpo entregue como minha presa... os lábios e a língua já apressados, indo juntar-se aos dedos que a sentem por completo. Aquele calor, a umidade, e o aroma de sexo me inebria. Meus lábios melando-se como os de criança que se refestela em doces. A boca sente aquele outro toque, ainda mais macio que antes e agora repleto de orvalho. O sorriso matreiro desponta e olho-a.

- Pétalas de rosa. - e ela sabia, de meu sorriso, que nada seria mais delicioso que violar a beleza daquela flor. E me olhava, vadia, implorando para ser despetalada.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Às portas…

Era fogo. Tinha certeza disso, porque ardia a pele como tal e ameaçava abrir-lhe a carne em bolhas. O cheiro também não era nada agradável. As mãos tentavam sentir a pele da coxa e vinha a súbita vontade de gritar. Não aliviaria em nada, a dor, mas era como se quisesse externá-la, de alguma forma.

Abrir os olhos foi um erro. Toda a desorientação e o mundo girando. As chamas ofuscavam-na e o fato de que tudo ao seu redor parecia prestes a derreter traziam à mente uma clássica visão do inferno. Tentar se mover foi outro erro. O grito finalmente escapava e, com ele, lágrimas. Tamanho desespero… sequer conseguia lembrar-se de como chegara ali.

Alguns olhavam, incrédulos, a extensão do acidente. Motoristas que paravam à beira da estrada, quase como mariposas aproximando-se do fogo. Os dois caminhões se haviam mesclado em uma massa distorcida, vazando areia e combustível inflamado. Era impossível ver o carro, prensado entre eles.

Ele caminhava, em meio aos carros e às pessoas. Em meio à certeza de que nada sobreviveria àquilo. Seus olhos admirando as chamas e como quebravam o silêncio da noite. E ignorava todas as mãos erguendo-se em sua direção, ao caminhar para o meio de tudo aquilo. Por um momento, alguém quisera correr para impedi-lo, mas o calor era intenso demais.

Em meio aos destroços, ela deixara-se perder em prantos e desespero. Sufocava tentando respirar, tão quente que queimava-lhe a garganta. Estava presa. A dor já querendo dar lugar ao desmaio. O cheiro era insuportável. Seus olhos arregalavam-se, quando divisavam a silhueta do homem. Caminhava pelo inferno como se nada sentisse. Um joelho apoiando-se ao chão, quando se abaixava para tocar-lhe o rosto.

- Você veio me salvar? – A esperança na voz já diminuta era tão fraca quanto o sorriso aos lábios já negros. As lágrimas corriam pouco, antes de evaporar-se.

- Não posso. – Por trás do homem, um par de asas, imponentes e alvas, descortinando-se como se pudessem afastar o fogo.

- Isso aqui é o inferno? – Havia uma estranha aceitação, naquela pergunta.

- Será bem mais frio do que isso, lá.

- Então não me prolongues a vida… – Fechava os olhos, sentindo as mãos daquele homem tomarem-lhe o rosto. As lágrimas. Sem a dor, ficaria apenas o desespero. Mas, de alguma forma, preferia não estar sozinha.

 Imagem de Luis Royo.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A dois… caça e caçador

Como um predador, sinto teu cheiro e teu medo. Perdendo-me na vontade de saborear teu corpo. Em um primeiro toque, açoita-te a vontade de fugir, como presa. Em seus olhos, fascina-me ainda mais a resistência ao momento.

Faminto, invasivo, voraz, ludibrio-te com um beijo. As mãos trilhando os caminhos de teu corpo, esquivando-se de pano, dedos e renda. De teus lábios, em uma voz hesitante, saltam desculpas e defesas. Tua mente teme e tenta ganhar tempo. Teima em admitir a loucura do cio e render-se em total entrega ao momento. Cala-te um novo beijo, uma mordida em teu pescoço, como o bote que derruba a caça. Em meus olhos, a loucura há muito instalada festeja teu sabor e tua pele.

Ainda debate, um pouco, relutando em aceitar o que teu corpo exige. A pele exposta, delicada e vulnerável, sob dedos que já conhecem teus segredos. A barriga treme com o toque suave, num misto de prazer e cócegas, da carícia que quase não sente, disfarçada de veludo. Os protestos ficando fracos, letárgicos... provocantes. Todos os "nãos" assumindo-se os "sims" que foram desde o começo. As carícias como correntes invisíveis, prendendo-te ao prazer e ao agora.

Mais um beijo cala teus protestos em definitivo. Os lábios por você toda, brincando com a intimidade de segredos e juras de paixão. Cobrando-te cada vez que já tenha pedido mais. Pousando em teus seios, em beijos de língua, saliva, e mãos. Jaz a presa, abatida em golpes certeiros, desejando o inexorável fim. Donde vinham protestos, pedidos misturam-se a gemidos, suspiros incontidos. Brinco com teu corpo e me inebrio em tuas palavras, que pronuncias quase sem pensar.

Implora que te tome, te faça minha não só agora, mas sempre. Demoro-me em saborear e tocar seu corpo... as roupas já no chão, ao lado da cama, esquecidas. Espero que teus olhos me digam que nada mais existe. Apenas nós dois. E ouço-te jurando que a terei para sempre, sempre que quiser. Teu corpo entregue a meus dedos, que brincam de te dar o que tanto pedes. Provocando-te até que a presa se faça também predadora. Querendo me perder junto a ti, nas tuas unhas, garras e presas.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sacrifício

O corpo nos braços Dele, deixando de ser da escrava. Uma vida, pulsante e quente, entregue às mãos de outrem... um ato de puro sacrifício, tornando-a uma oferenda ao Senhor. Ele sente sua pele e arrebate-a com toda a dor e o prazer que só ele sabe proporcionar. A união de corpos que começa quase como um ritual fúnebre.

Panos e roupas de um negro envolvente... a presença de um toque que acolhe o corpo inerte e entregue, sadicamente preparando-o para o sacrifício em nome Dele. Velas queimam à volta... incensos deslizam sobre a pele submissa, parecendo queimar, fazendo-a se sobressaltar como uma vítima que só percebe a realidade de sua escolha quando já está amarrada ao altar.

Por baixo da vendas, alguém chora a morte por vir. O Carrasco não pensa mais do que o necessário, não se comove... apenas a prepara. As velas se aproximando e derramando a cêra quente sobre a pele... o grito que ecoa nas paredes e volta para ela. As amarras são fortes demais... a morte a atingirá, certeira. As lágrimas saem, incontidas... sente o corpo do Carrasco se avolumando próximo e sabe que o sacrifício se inicia.

Toda a dor destes momentos, a aproximando mais do fim. Tanta... tão forte... pontadas agudas dos tapas e a batida forte do açoite. Seu Carrasco é sádico, ri de seu choro. De seu desespero. Seus lábios clamam por perdão, em súplicas incontidas. Tenta, de todas as maneiras, mudar aquela sentença com palavras e gritos de seu arrependimento. Com juras de eterna submissão e obediência.

Mas a sentença é desferida, em meio à intensidade da dor... o corpo já desejava essa morte, o fim de todo aquele sofrimento. Recebe seu momento final com prazer e geme, em satisfação profunda... as estocadas fazendo o corpo se contrair e tremer... a arma que lhe sacrifica deixando escorrer o que desde o primeiro momento já preenchia aquele corpo, em gotas que pontuam o altar... os últimos suspiros saindo em gritos incontidos... últimas súplicas e juras vãs. Sente-se morrer, várias vezes, os espasmos mais fortes, a cada pedaço de sua alma que tenta apagar-se... os nervos se anestesiando, aos poucos... o corpo que renuncia a vida e os gemidos cessando em últimos sussurros de quem tenta respirar uma última vez. Se entrega ao infinito de um nada, que parece cobrir-la. Sua mente inexiste, por alguns momentos... o corpo inerte...

Desperta ao sentir o peso, sobre si... e nota o Carrasco também morto... inerte... o corpo dele unido ao seu... dentro de si... fluidos.


The Cross of Pleasure, de Luis Royo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

haikai

amo assim mesmo
de pele, carne e suor
te bebo em prazer


Water ecstasy, de *Mrs-Dracula9274 no deviantART.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Destilados e Fermentados

Coisa de estilo ou instinto
isso de ser gente de tipo.
Porque se um é delonga
o outro “já é”.

E você, quem seja você
não encaixa por que quer.
Mas por que tem gostos
mil desgostos.

Afinal, sê velho ou novo,
experiência ou explosão.
É esse monte de coisas
A idéia em expansão.

Pra perder-se na vida
da vida…
do ser…
ou do estar.

Mas respira.
Então possivelmente é.


Strangle, de ~EkoKaos no deviantART.