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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Ponteiros errados *em um pedaço de jornal ao vento*

Como morador do Rio de Janeiro, podem achar muito estranho o que eu relato aqui hoje, mas eu sofro de HdV. Não, não, não, por favor, não me confundam aqui, jamais ousaria fazer graça com uma condição tão séria e nefasta quanto a AIDS, longe de mim. Falo do Horário de Verão. Xinguem-me todos, o quanto quiserem, mas eu não gosto dele. E não gostar dele é sofrer de HdV.

Já ouvi todos os argumentos a seu favor, mas o que mais gosto é o de que “o dia rende mais”. Esse vale talvez para aqueles que, como o canário da minha vizinha, dormem assim que tudo fica escuro ou alguém joga uma toalha sobre a gaiola. A essas pessoas, aliás, cuidado ao dirigir com vidro fumê no carro. Problema sério. Mas enfim, eu estou cá contando os dias para o fim desse mal que, convenceram-me, é necessário para poupar energia ao país. Meu dia, no entanto, rende as mesmas 24 horas que eu sempre conheci e amei. Para os madrugadores de plantão, é uma época que traz a sensação horrorosa de que você acorda ainda de noite.

Entendo os praieiros e seu amor por essa aberração cronológica. Mas eu não sou praieiro, mesmo morando no Rio. Entendo ainda aqueles que deixam o trabalho às 17, 18h e dizem que ao menos ainda ganham um pouco do seu dia, para fazer algo. Mas eu me reservo o direito de não gostar de jantar com o céu ainda claro. Eu não acho tanto que ganho mais do meu dia, mas perco um pouco da minha noite, e acho isso injusto.

Um romântico incorrigível, eu gosto da lua, do escurinho e do sereno. E quer coisa melhor que brisa fresca de noite de verão? Sinto-me, portanto, roubado de minhas agradáveis noites de brisa. Aqui sim ouso ser carioca e gostar da maresia do calçadão, do cheiro salgado do mar, à noite. E, convenhamos, tem todo jeito de doença sazonal, esse tal HdV.

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Crônica publicada no jornal Caxias em Ação de fevereiro/08.