Acordava aflito, com a mão sobre o peito, fingindo que tinha algo a agarrar, ali. Reflexo involuntário de quem teve coração, algum dia. Os dedos de frio metal deslizando, arranhando o próprio peito de pedra. Era Pedro, por causa disso. Se tinha outro nome antes, não se lembrava mais. Se tinha sonhado algo pavoroso, para acordar tão bruscamente, também não sabia. Mas provavelmente não. No sentido que provavelmente um computador não sonha com seus arquivos, durante sua defragmentação.
Erguia-se, gigante, grande demais para lembrar como era se levantar sobre pernas. O que quer que o sustentava, em nada lembravam os músculos de outrora. E aqueles certamente não rangiam tanto a cada passo. A quem via e ouvia, talvez parecesse uma dificuldade enorme, mas não era. Simplesmente ainda se lembrava como caminhar e o fazia quase naturalmente. Pequenos pedaços, placas, porcas e parafusos que ia perdendo pelo caminho, caíam só porque não eram mais importantes. Mas não o deixavam mais leve.
Naquele dia, trilhava um caminho antigo. Sem motivo aparente, estava ali. O que já fôra terra, mato e os sons de pássaros substituído por concreto, pedra, ferro, frio… como ele. Mas algo faíscou, súbito, por trás de seus olhos de fibra e vidro. Talvez algum elástico ou correia arrebentara, porque aquilo era um impulso. Os estrondos de uma corrida desabalada ameaçavam rachar cada janela, cada vitrine, cada tela. Ele tinha pressa, sem saber porque. E correndo como desaprendera a fazer, ia se despedaçando. Não sentia aquilo, não percebia cada circuito e placa que queimavam, dentro de si. Os pedaços daqueles dedos que iam ficando, fincados e presos ao chão, enquanto arrancava pedaços imensos do concreto e asfalto, ao fim daquela trilha.
Era uma tarde de domingo, sobre a grama, quando das lágrimas erodiu-se a terra e surgiu aquele buraco que ele agora perdia tudo o que restava, para cavar. Sem motivo nem lembrança alguma, exceto da grama… a última faísca estourava de seu corpo num rangido agudo e tudo cessava. Mais alguns centímetros apenas… uma distância grande demais para continuar cavando.
Não morreu, porque não podia morrer. Mas desligou-se, em pedaços… sem alcançar o próprio coração.

