Bem-vindos à nova dimensão... seqüenciador de sonhos online.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Sonhos de Agora *sussurrado pelo Troll, à luz da fogueira*

Era um lugar estranhamente familiar, mas sob uma luz surreal. O céu não se deixava definir entre uma tarde cinzenta, um meio-dia ensolarado e uma manhã de azul límpido... mas ele, o Sonhador, estava ali e tudo sentia e tocava. A grama sob seus pés tinha aquele cheio de recém-cortada e a o pequeno muro de madeira à sua esquerda gritava por uma mão de tinta. Ali estava, como se ali tivesse surgido do nada, a mente enturvecida em meio às teias de algum sono profundo que, agora entendia, levara-o àquele local.

Sobre aquela grama também havia o Menino, sem rosto, agachado sobre ela, brincando de cutucar a terra com um graveto sujo. Um cão, do outro lado da mureta quase podre, ladrava cada vez mais alto, mais forte, incessante. O Menino não se movia. O Sonhador, que ainda perguntava-se o quanto participava daquele sonho, sabia apenas que estava ali. Ao fundo, bem baixo, uma voz entoava palavras que ele conhecia, do prólogo de uma canção: “Nun liebe Kinder gebt fein acht”, e isso trazia-lhe o princípio de um sorriso, aos lábios. “Ich bin die Stimme aus dem Kissen / ich hab euch etwas mitgebracht / hab es aus meiner Brust gerissen”.

O cão gania. A cabeça do animal, ensangüentada, decepada, dilacerada do corpo, vinha arremessada por cima do muro baixo de madeira... a criança punha-se a correr, sem dar um grito. Apenas corria, fugia daquela mureta, daquela cabeça q ainda espirrava sangue sobre a grama. O Sonhador, atônito, nada achava poder fazer exceto imitar o infante. A música não começava, ouvia-se apenas o prólogo se repetindo. “Nun, liebe Kinder...”. Um baque surdo, um golpe à nuca... sentia a grama tocar-lhe o rosto... e fechava os olhos.

No abrir dos olhos, o lugar era o mesmo, o Menino era o mesmo, os latidos iguais... a cabeça do cão. A fuga... o baque, a queda... o acordar. Ele não sabia dizer por quantas vezes já tentara fugir, antes de decidir olhar para si mesmo. As mãos... observava-as por um longo tempo, enquanto o animal teimoso ainda podia ladrar. E só então percebia o que era... e que não poderia fugir dali. Estava ele onde deveria. Via o sangue e a criança começar a correr. Mas dessa vez, o Sonhador apenas dava alguns passos à frente, decidindo colocar-se entre o jovem e a cerca velha.

Um ser, uma jovem – de talvez 16 anos, de pele um pouco enegrecida, manchada, saltava aquela mureta e ignorava o Sonhador, para perseguir o infante, mas ele lhe agarrava o pescoço, por trás. Os olhos eram enormes, os cabelos eram longos, escuros, lisos... as mãos terminavam em ossos pontiagudos, negros. A cabeça girava sobre o pescoço e aqueles imensos olhos fitavam seu captor, os lábios abrindo-se com um som que mais lembrava o rasgar de muitas folhas de papel... aquela imensa boca, que estendia-se de uma orelha à outra do demônio, abrindo-se cheia de dentes pontiagudos, desordenados. De um susto, as mãos soltavam-no e a voz do ser vil parecia rasgar e estraçalhar mais tantas folhas.

“Eu vou pegar quem você ama e arrancar-lhe a boca”

O sangue começava a ferver, enquanto a criatura se afastava, correndo. Olhara-o com aqueles olhos frios, por algum tempo, após sua única frase. E o Sonhador punha-se a correr, também. Agora na direção do demônio. Buscava-o, sentindo aquela fúria que movia suas pernas adiante, rapidamente. Não deixaria jamais que aquela ameaça se concretizasse. Pensava em todos aqueles que amava. Pensava nela... não, ele jamais poderia fazê-lo! “Não vou deixar!” Corria, sentindo a respiração intensa, as narinas dilatando-se em busca de mais ar. Por várias vezes, quase alcançou o demônio, mas ele saltava para longe daquelas mãos, agora resolutas. Não o soltaria mais. Não devia tê-lo soltado.

Encurralava o animal traiçoeiro, aquele rosto vil fitando-o... o confronto era inevitável e o Sonhador sabia que não poderia continuar a perseguição, por muito tempo. Mas o ser não parecia sequer cansado. Os dois praticamente dançavam, cercados por muros altos, ele não sabia dizer de onde. O sonho tornara-se somente eles dois, só aquela missão na qual ele não poderia falhar. Sabia que precisava atraí-lo até si e socou o ar, enquanto a criatura desviava-se, vindo morder-lhe o pulso. Engolia o punho direito, inteiro, os dentes cravando, rasgando carne, músculos e ossos... o guerreiro sequer gritava. Já decidira dar a mão em troca daquela captura e por isso não importava se ainda a tivesse. Importava a outra.

Os dedos ao redor do pescoço da criatura, que parecia satisfeita com o sangue que escorria-lhe dos imensos lábios... o Sonhador apertava, com toda força... a mão manchada do próprio sangue, o corpo tremendo da corrida e do esforço. O ser se debatia, mas seus olhos pareciam entender o próprio fim. Rasgava as roupas e a pele do agressor, com aquelas unhas negras, em um último esforço de livrar-se. Então pendia inerte, da mão do Sonhador, que recusava-se a soltar-lhe o pescoço. Apertava com toda força, os olhos vertendo lágrimas, ainda enfurecido pela ameaça daquele ser. Não deixaria nada ameaçá-la... não perdoaria quem o fizesse. A mão decepada de pouco importava.

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O Troll fitava os olhares espectadores enquanto deixava-se respirar mais fundo o ar quente da fogueira. Esquecendo aqueles momentos, levantando-se do chão com um estrondo, ao apoiar-se à mão direita, de pedra, para voltar a caminhar pra dentro da caverna.

2 comentários:

Gabriel disse...

E eis que me encontro como primeiro comentário.
Uma história apreensiva que nos faz estar ao mesmo tempo como observador e observador do observador. Notável. Em momentos me vi como o sonhador, vendo as coisas como ele via, e em minutos depois, como um expectador do sonhador. A imagem do ser que se manifesta, a impossibilidade de fugir.. não há saída senão enfrentar. Maravilhoso texto, Guardião.

Tyr Quentalë disse...

O que dizer nessas horas, se não que a alma fica inquieta, e que o espírito se rebela, querendo ser o próprio sonhador esmagando o pescoço do ser vil em seu sorriso nefasto?
Não fui a primeira a comentar, mas jamais deixaria de comentar. O espírito ainda se encontra inquieto, mas se acalma ao saber que mesmo com o sacrifício da mão o Sonhador assegurou a vida daqueles que ele ama e principalmente a vida dela. Espero por mais linhas que hão de surgir em tua caverna.