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quinta-feira, 5 de junho de 2008

"Berçoquê?" *impresso em um panfleto velho*

Outro dia ouvi uma criança fazer essa pergunta ao pai, no metrô, enquanto ele tentava ensinar-lhe o hino nacional. “Esplêndido, meu filho. Deitado eternamente em berço esplêndido. Quer dizer que o nosso país é lindo”; “Mas pai... por quê então deitado? O berço não fica feio, se ninguém cuidar?”; “É o hino, filho”. Pois em sua inocência, não é que essa criança falou da crise política, da violência, da impunidade, mesmo sem querer? E o pai, da mesma forma, evocou o típico descaso que a sociedade e o poder público insistem em demonstrar. Aliás, adoro quando retrucam dizendo que “outros roubaram, antes de mim”. Uma justificativa fenomenal, realmente. Então me entendam quando eu disser que a Terra é chata. Afinal, outros pensavam assim antes de nós. Galileu, coitado, queimou à toa.

Mas sem divagar demais, voltemos ao berço. Não é problema algum que ele seja esplêndido. Aliás, adoro isso. Realmente, nosso país é lindo, o pai daquela criança estava certo. E, se querem nos tratar como crianças, que seja com muito paparicar, certo? Adormecer no esplêndido é o mínimo. O problema que tenho com essa frase é o estado em que ela coloca a nação: deitada. Não se enganem, eternamente não vai só até amanhã. Então quem cuida de tamanho esplendor, quando não fazemos questão alguma de levantar e viramos para o outro lado, continuando a soneca?

Algo que notei, deitado no meu cantinho do berço, é que ninguém troca essa fralda já faz um tempo. Tem tanto imposto nela que eu acordo todo dia assado. Sabe Tiradentes? Joaquim José da Silva Xavier? Ele morreu protestando contra 20% de impostos. Ah, que sonho, meu amigo dentista! Eu queria que me roubassem tão pouco. Dinheiro pago ao governo que não se vê aplicado em NADA não é imposto, é roubo dos mais descarados. Que eu saiba, não pago pra eles brincarem de polícia e ladrão no Distrito Federal, pois sei que no final da brincadeira a cadeia volta a ser só outro canto do playground.

Mas nossos políticos são assim, não é isso? A cada eleição, só dá pra votar em pilantra. Esse é o hino? Ah, olha, outra opção tem que haver. Da desobediência civil contra impostos abusivos até atos de repúdio social a essas pessoas, acredite que opções existem e várias não te colocam na cadeia. Mas o berço está tão confortável. Por quê agir, afinal, se no fim sempre se dá um jeitinho? É essa vida de ‘vai levando’ que provavelmente explica o olhar do resto do berçário, que parece não nos levar a sério.

Afinal, por trás de tantas reclamações, o quanto você está disposto a vencer a inércia e agir, pelos seus direitos? Um amigo de longa data entrou concursado em uma vaga de hospital público. Hoje se gaba: “trabalhar mesmo eu só trabalho umas duas horas por dia, o resto lá é relax”. É uma pena que os meus impostos paguem o salário dele e, no entanto, eu não possa demiti-lo. Mas tenho o péssimo hábito de não ficar calado. E desde então, ele não comenta mais comigo sobre trabalho. Um pacto de não-agressão mútua.

Então não são apenas os nossos políticos, não acha? Há um longo histórico de indolência da sociedade brasileira, uma escalada do descaso que nem adianta discutir ovo e galinha pra culpar alguém. Já não interessa de quem seja a culpa e quem tenha começado isso, mas sim quem precisa agir para remediar o estado das coisas.

Uma pessoa só não faz a diferença, é isso? Tiradentes pelo menos tentou. E se você precisa de motivação, levanta e vai virar feriado. Garanto que multidões aguardarão ansiosamente o seu dia, pra não irem trabalhar. Mas a criança do metrô, essa talvez não.

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Crônica publicada na edição n° 33, de aniversário do fanzine Elefante Bu. Quem não tiver lido, eu recomendo. E aproveitem para baixar a 34.

Boa leitura.

2 comentários:

Tyr Quentalë disse...

Já te disse o quanto eu adorei esta tua crônica, meu amado?
A forma envolvente como escreves, nos faz ficar atentos as simplicidades de fatos que nos rodeiam e que em nossa correria nunca prestamos atenção, ou quando assim nos atentamos, ficamos pensativos no que ouvimos.
Fica cada vez mais difícil, contornarmos as perguntas de nossas inocentes crianças que em sua sagacidade parece estar muito mais atenta aos problemas do que aqueles que são ditos responsáveis, mas no fim.. somos todos responsáveis por este berço "esplêndido" e nos encontramos angustiados nos perguntando o que podemos fazer para melhorar isso?
Bravo!!! Bravo!!! Mais uma vez colocarás as pessoas para pensar!
Parabéns meu amado marido e que mais crônicas tuas sejam publicadas!!!

iara disse...

muito pertinente para o atual momento do país...
eadorei. parabéns!
bjs