Bem-vindos à nova dimensão... seqüenciador de sonhos online.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Às portas…

Era fogo. Tinha certeza disso, porque ardia a pele como tal e ameaçava abrir-lhe a carne em bolhas. O cheiro também não era nada agradável. As mãos tentavam sentir a pele da coxa e vinha a súbita vontade de gritar. Não aliviaria em nada, a dor, mas era como se quisesse externá-la, de alguma forma.

Abrir os olhos foi um erro. Toda a desorientação e o mundo girando. As chamas ofuscavam-na e o fato de que tudo ao seu redor parecia prestes a derreter traziam à mente uma clássica visão do inferno. Tentar se mover foi outro erro. O grito finalmente escapava e, com ele, lágrimas. Tamanho desespero… sequer conseguia lembrar-se de como chegara ali.

Alguns olhavam, incrédulos, a extensão do acidente. Motoristas que paravam à beira da estrada, quase como mariposas aproximando-se do fogo. Os dois caminhões se haviam mesclado em uma massa distorcida, vazando areia e combustível inflamado. Era impossível ver o carro, prensado entre eles.

Ele caminhava, em meio aos carros e às pessoas. Em meio à certeza de que nada sobreviveria àquilo. Seus olhos admirando as chamas e como quebravam o silêncio da noite. E ignorava todas as mãos erguendo-se em sua direção, ao caminhar para o meio de tudo aquilo. Por um momento, alguém quisera correr para impedi-lo, mas o calor era intenso demais.

Em meio aos destroços, ela deixara-se perder em prantos e desespero. Sufocava tentando respirar, tão quente que queimava-lhe a garganta. Estava presa. A dor já querendo dar lugar ao desmaio. O cheiro era insuportável. Seus olhos arregalavam-se, quando divisavam a silhueta do homem. Caminhava pelo inferno como se nada sentisse. Um joelho apoiando-se ao chão, quando se abaixava para tocar-lhe o rosto.

- Você veio me salvar? – A esperança na voz já diminuta era tão fraca quanto o sorriso aos lábios já negros. As lágrimas corriam pouco, antes de evaporar-se.

- Não posso. – Por trás do homem, um par de asas, imponentes e alvas, descortinando-se como se pudessem afastar o fogo.

- Isso aqui é o inferno? – Havia uma estranha aceitação, naquela pergunta.

- Será bem mais frio do que isso, lá.

- Então não me prolongues a vida… – Fechava os olhos, sentindo as mãos daquele homem tomarem-lhe o rosto. As lágrimas. Sem a dor, ficaria apenas o desespero. Mas, de alguma forma, preferia não estar sozinha.

 Imagem de Luis Royo.

4 comentários:

Tyr Quentalë disse...

Eis que surge finalmente depois de tanto tempo um texto que me prende a atenção. Dizem que estou muito ligada à morte pelo tanto que escrevo sobre ela, mas o que há demais cativante justamente no que a precede? Seu texto conseguiu trazer novamente as cenas aos meus olhos, a dor e o sofrimento, Um cenário tão velho e conhecido que apenas erguem os olhos observadores de uma velha guardiã. Parabéns Troll, finalmente você conseguiu me fazer comentar em seus textos novamente, quebrando o silêncio ou a falta de palavras que eu vinha tendo.

J.C disse...

Nuu bem envolvente esse texto... confesso que fiquei preso nele do começo ao fim... gostei do desenrolar das palavras postas aqui...

Valéria Sorohan disse...

Envolvente, queria o desfecho logo. Um jeito muito lindo de descrever a morte, a passagem.

BeijooO

Troll disse...

TYR:
Então seja bem-vinda de volta, Tyr. A morte é um tema e tanto, mas a aceitação da vida também. Os raros momentos em que nos permitimos olhar para trás e entender o caminho q trilhamos.

JC:
É um grande praze tê-lo e ter a sua atenção, por aqui, meu caro. Espero que volte mais vezes.

BIA:
Fico lisongeado, Bia, em tomar seus sentidos, por aqui.

VALÉRIA:
Faz parte de todos nós, não é mesmo? E é daquelas coisas que participa das nossas vidas o tempo todo, de certa forma. O q não é necessariamente ruim. "Cada segundo fere. Só o último mata." É só mais um desfecho.