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domingo, 7 de dezembro de 2008

Cova rasa *gravado à lápide*

O lugar era esplendoroso. Um verdadeiro símbolo de tamanha ostentação, em ouro e prata, ornamentado sob o trabalho de sabe Ele quantos pedreiros, marceneiros, artesãos e trabalhadores humildes. A nave gigantesca, à frente dos portões, coisa que me lembra cinemas antigos, as verdadeiras casas de espetáculos e entretenimento. Mas ali era bem mais solene. Nem um pouco sóbrio. Tudo com os tons da veneração que ao local era cabida.

Estavam ali, uma procissão de fé e dor - e me pergunto onde as duas se separam -, o terror de uma força à qual tantos se esforçariam em erigir aquelas paredes, funesta homenagem. Ali celebravam o medo, a miséria da existência, o pecado de viver. Ali, choravam o horror barroco de uma morte insepulta. Espiavam pela boca de um homem como se fosse janela, para saciar a curiosidade do que seria o céu, do quanto deveriam temer o inferno e quais as verdades do atormentador purgatório.

No auge de seus ritos macabros, canibalizam o Filho, todos provando uma mordida de sua carne enquanto seu líder lhe bebe o sangue, como se num ritual bárbaro para roubar a força de seus caídos. Constróem memórias de alguém que nunca existiu, provando que a morte é o maior dos perdões. A redenção dos erros terrenos. Suplício em pecado.


Cross, de ~cobaltglass no deviantART.

9 comentários:

Mai disse...

Ei, Troll.

Que posso eu dizer diante da grandeza deste teu texto?
Neste instante eu sou pura reflexão.
Muito lindo o texto.
A imagem, símbolo emblamático das dores, basta-se, em silêncio...
Hoje, parece-me que todos estão assim... profundos, introspectivos...

Mais carinho.

Tyr Quentalë disse...

Muitas vezes locais como estes são capazes de carregarem sombras mais aterradoras daquelas que tentam nos convencer de que são elas que devemos temer.
Os punhos se fecham de forma furiosa e os dentes rangem diante de tamanho absurdo daqueles que eregem templos, imagens que devem ser adoradas.
Arrancaste o vermelho de minha íris e proferiste em tuas linhas meus pensamentos, caríssimo Rei.

A Senhora disse...

Isso é uma prova cabal da animalidade humana - somos canibais. Adoramos esconder isso sob a capa da religiosidade, mas até ela assume isso.

Odiar o nosso lado animal é não se reconhecer no espelho como parte da humanidade.

iara disse...

rituais mostram muito de quem somos, nossos verdadeiros apegos, medos, valores subjacentes...
já te disse que não gosto de rituais?
quanto a religião, instituição puramente humana, com a carag que isso tem de pior, não acho que preciso disso pra chegar aos céus...

Troll disse...

MAI:
Esse texto eu já havia começado a escrever, de uma inspiração que havia surgido em meio à missa de sétimo dia de um familiar. Curiosamente, consegui completá-lo e gostar dele hoje, dia da missa de um mês do falecimento.

TYR:
Não é preciso ir muito longe, para perceber que Ele com certeza não quis ou planejou tamanha veneração mórbida.

MAMYS:
Odiar o nosso lado animal é tentar esconder a natureza por baixo de convenções. É não estar pronto para quando instinto se torna impulso.

IARA:
Há ritos e ritos. Mas todos aqueles que prometem redenção em troca de contribuições sempre me parecem os piores.

Poisongirl disse...

Vc me fez ver a antropofagia além anjo ; rituais macabros onde o estômago do inimigo - do invencível - é a maior honraria.

No minímo , vale um grande reflexão sobre vida e morte.
Inquietador.

Troll disse...

POISON:
E não estamos todos nos devorando, minha amada, dia após dia, retroalimentos da história, da mídia e da religião nos nutrem indiscriminadamente, como se dessa forma fôssemos melhores q o passado de barbáries e dor.

Fabio Fernandes disse...

Acho desnecessário olhar para a boca de alguém pra tentar imaginar o céu. Até mesmo pq não acredito que ele exista, assim como o inferno.

Mas ritos nos fazem imaginar o inimaginável, pensar como é na morte, o quê há depois, se há um depois.

Troll disse...

FABIO:
A busca pela explicação do mundo, da vida e seus motivos sempre tirou o homem da racionalidade iluminista, que na verdade é posterior a essa empreitada filosófica.