Bem-vindos à nova dimensão... seqüenciador de sonhos online.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Hina-nagashi *flutuando rio abaixo*

Era um boneco de corda, como vários outros. Havia pedido para não ser títere e assim fora se livrando dos fios do mundo, ainda que jamais de todos. Agora, mantinha suas engrenagens rodando sob chaves bem específicas. Dormia para enrolar as molas das pernas, dos braços. Acordava para enrolar as da mente, que no sonhar iam sempre se soltando demais. Eram cordas longas de se dar, mas ele achava tempo para todas elas. Todas menos uma.

De vez em quando, no espelho, aquela pequena fresta lhe chamava a atenção. Deslizava os dedos de resina e metal pela placa desgastada do peito e sentia aquele encaixe hexagonal, vazio, não maior que a ponta do mindinho, como se esperando algo. Ali já houvera dor, mas sem qualquer chave para dar corda, era apenas um vazio. Todo o resto funcionava, o boneco não precisava de mais do que isso, para existir e seguir seu caminho. Mas às vezes aquele vazio virava falta e ele nem sabia de quê, exatamente.

Mais jovem, havia aquela chave, bem ali, e todos os dias era como se dar corda no peito desse conta de todo o resto. Corria, sentindo aquela mola imensa impulsionando tudo, uma liberdade de não ter que ficar parando para enrolar só braços ou pernas. Mas era mais que isso, também. Ele já nem lembrava, mas seus olhos ganhavam uma luz peculiar. E por trás dessa, via um mundo de cores mais vibrantes, de momentos verdadeiros. Também não lembrava que por vezes essa mesma luz o ofuscara.

***

Ela era linda. Gozava intensamente, da mesma estranha liberdade, tinha as feições esculpidas em algum âmbar tão polido e macio, um alabastro com todos os seus pequenos veios, e ainda assim perfeito. Eram os dois de corda. Com ela, o boneco descobrira como era ter quem mais girasse aquela chave. Além dos prazeres, do desenrolar de molas de ambos os lados, havia o cuidado de apertar-lhe o peito, de alimentar aquela liberdade. E ele, talvez tolo, quis crer que havia algo a ser feito. Trocado. E assim ela, tão tola quanto, viu-o tirar aquela peça de seu encaixe e tirou a dela. Trocaram chaves, em uma promessa.

Por muito tempo, os dois se cuidaram e cultivaram aquela promessa, um com a chave do outro, buscavam-se e deixavam-se apertar o peito um do outro. Era uma carícia, algo que compartilhavam, muito além dos olhares e das palavras. Era algo q tinham apenas um com o outro, ninguém mais podia girar aquela mola, pois cada um tomara do outro o meio. A liberdade ainda existia, giravam-se para seguirem cada um em suas batalhas, em seus afazeres, e se viam novamente ao fim de cada noite, ao enfraquecer daquela corda, e novamente acariciavam-se naquele ato tão natural aos dois.

Até que ele acordou sem encontrá-la. Sem saber o que teria acontecido. Ela se fôra. E com ela, sua chave. Desde então, ele de vez em quando tocava aquele encaixe, vazio. A chave que ela deixara não servia, rodava frouxa ali. Não era a dele. Até o momento que desistiu de tentar. Passou a dar corda em todo o resto. Não era em nada como lembrava-se de antes, nem como era com ela. O fazia não por ímpetos de uma liberdade ingênua, mas para continuar sendo. Aos poucos, descobrindo porque tantos aprendiam a viver desconfortáveis com as próprias engrenagens.

***

Assim, desistindo daquela mola, descobriu o que é crescer, realmente. Boneco de corda, invejava os títeres que moviam-se em seus fios, sem molas, mesmo que à mercê de vontades alheias.

Até ela, outra... até aquela chave que viera mover-lhe o peito, uma vez mais. Até reaprender um impulso sem limites. No encaixe perfeito das peças, os dois descobrindo um. Não eram as que lhes haviam roubado. Mas ali, pouco importava.

8 comentários:

Tyr Quentalë disse...

todos os comentários que eu já havia sobre esse texto, você já os conhece, Andarilho.
Então, aqui deixo apenas meu sorriso, por rever novamente este texto belíssimo.

iara disse...

lindo demais o texto meu amigo.
mas esse vazio original. será que algum dia o preenchemos?
outra pesoa não pode preencher, é nossa, podemos entender dividir falar. mas asa pessoas são livres vêm e vão...estão enquanto sentem que querem ...e somos felizes quando estamos...mas algo cutuca nesse vazio que todos temos.
estava lendo sobre isso esses dias, depois explico. lv. bj

Escrevendo na Pele disse...

Lindo e pungente! Concordo com a Iara, esse vazio... às vezes me pergunto "quem sou eu" e me toco, me mexo, me aliso só pra sentir. Ainda sssim, as dúvidas persistem. Vou te dixar um enorme beijo. Smakssss!!

Troll disse...

TYR:
Ainda não me sinto plenamente satisfeito com esse texto, mas por mais q o reescreva, sempre sentirei faltar algo. Acho q é um fato, em si, poético. *rs*

IARA:
E se houvesse a plena satisfação, caríssima, que impulso nos restaria, para buscarmos mais? Não, não quero, quero ser sempre incompleto, sempre faminto, preenchendo esse vazio de novos momentos e lembranças. E encontrei alguém com essa mesma fome.

ESCREVENDO NA PELE:
As dúvidas persistirão, pois só há plenitude na morte, caríssima. Não existe estado de total satisfação. Ou seríamos apenas carne.

Mai disse...

Olá, Troll.

Hoje, percebí o intenso do intenso de um vazio.
Como preenchê-lo, Troll?
Se souberes, me dizes?
Há que sempre inscrevermo-nos, escrevê-lo para descrevendo-o, ponderar, em palavras, o vazio do muito e do poeta.
E assim, círculos, são retângulos ou quadrados de prisão, se não gozarmos da liberdade de criar, e recriar, Troll.

Eu fiquei e ainda por algum tempo, permanecerei, lembrando doboneco e a corda do coração.

Lindo!
Muito!

Feliz Natal, amigo.
Paz!

Troll disse...

MAI:
Caríssima, se houvesse solução para este vazio, se houvesse a chave definitiva, que faríamos dessa dádiva? E que seria de nós, sem o impulso e a fome de buscar ainda mais, a cada segundo?

Pobres de nós, sem a perpétua necessidade dessa corda, de algo q nos impulsione à frente.

Poisongirl disse...

"O espelho não me prova que envelheço
enquanto andares par com a mocidade;
mas se de rugas vir teu rosto impresso,
já sei que a Morte a minha vida invade.
Pois toda essa beleza que te veste
vem de meu coração, que é teu espelho;
o meu vive em teu peito , e o teu me deste:
por isso como posso ser mais velho?
Portanto , amor , tenhas de ti cuidado
que eu , não por mim ,antes por ti , terei;
levar teu coração , tão desvelado
qual ama guarda o doce infante , eu hei.
E nem penses em volta , morto o meu,
pois para sempre é que me deste o teu."

William Shakespeare

- Perdoa a demora Anjo?
Precisava achar esse soneto , tenho ele guardado há tanto tempo , sem saber bem o pq.
Sempre foi vc, sempre foi por vc, agora eu sei.

Amo mais.E muito e tanto.

Troll disse...

POISON:
E acha q eu não perdoaria, se a demora foi por motivo tão belo e intenso? O soneto é perfeito, meu amor, e que o tenha guardado para mim... me toca de um jeito q é difícil descrever.